Felipe Machado: Fim da turnê ‘To Live Again’: Obrigado, Brasil

Quando surgiu a ideia da reunião do Viper para comemorar os 25 anos do disco ‘Soldiers of Sunrise’, marcamos uma reunião na minha casa para discutir o assunto. Meus colegas de banda (além do ‘eterno Viper’ Yves Passarell) acreditamos que o projeto idealizado pela produtora Wikimetal era bem legal e decidimos levar adiante.

Na ocasião, chegamos à conclusão de que seriam cerca de seis a oito datas durante o mês de julho, nada mais que isso. Quando a notícia da volta espalhou-se pela internet, ficamos impressionados com a reação das pessoas. Havia pelo Viper um carinho muito maior do que imaginávamos. E isso também se refletiu no interesse de contratantes e produtores de shows por todo o país. E os seis shows do plano inicial viraram doze, dezoito, vinte e dois… até que chegamos a 28 shows em um período de quatro, cinco meses.

Todos foram marcantes, sem exceção. Alguns foram melhores que outros, como é normal em uma turnê. Mas todos foram muito especiais, não apenas porque é sempre gostoso pisar no palco, mas porque cada um deles foi uma oportunidade de conhecer pessoalmente aqueles fãs que realmente amavam o Viper, amavam o repertório e conheciam as músicas como se elas tivessem sido lançadas hoje. Não foram, repito: foram gravadas e lançadas há mais de vinte anos. Impressionante constatar que elas ainda emocionam, não só o público, como a nós mesmos.

Sim, porque às vezes as pessoas esquecem que essa emoção de voltar no tempo, ver a banda “que marcou minha adolescência” (foi uma das expressões que mais ouvimos ao longo da turnê), não estava restrita ao público, mas também a nós, músicos. Éramos muito jovens quando gravamos aquele material, e foi uma delícia voltar àquele repertório com a visão e vivência que temos hoje. Estamos mais velhos, sim. Mas foi incrível perceber que essas canções continuam extremamente vibrantes e atuais, o que me levou a outra constatação: a qualidade de um show não está ligada à pirotecnia, efeitos especiais ou qualquer outra razão extra-musical. Um bom show é feito de boas músicas. Ponto.

A ideia de tocar os dois primeiros discos da banda na íntegra veio de um amigo meu, o fotógrafo Marcos Hermes, quando estávamos uma noite tomando cerveja na minha casa e eu contei a ele sobre a tour. Achei a ideia boa e a levei para a banda, que topou. No papel, era realmente um conceito incrível: tocaríamos todo o repertório daquela fase, portanto o público nunca poderia dizer que ‘faltou tal música’. Quando começamos a ensaiar é que vimos o tamanho do problema. O show ficou com duas horas e meia! Porque além dos dois discos, ainda teríamos que fazer um bis, impossível deixar ‘Rebel Maniac’ de fora…

Os primeiros ensaios foram, digamos, ‘estranhos’, mas super divertidos. Eu tive que tirar algumas músicas novamente, principalmente os solos, que jã não lembrava muito bem. “Que música é essa, ‘The Whipper’? Qual é a base do solo, mesmo?” Chegamos a ensaiar umas cinco vezes antes de anunciar a volta. Tínhamos que saber se a química rolaria como nos velhos tempos, ainda mais porque contávamos com um integrante novo, o guitarrista Hugo Mariutti. Mas além do Hugo tirar de letra a parte musical – ele é um guitarrista muito melhor que eu –, o cara se mostrou perfeitamente integrado ao nosso estilo do ponto de vista pessoal. O que, diga-se de passagem, muito provavelmente é a coisa mais mágica a respeito dessa banda.

Uma banda se faz com músicos, mas antes de músicos, essas pessoas são seres humanos. Eu sei, soa brega. Mas é totalmente verdadeiro: o Viper foi formado como uma banda de amigos que moravam no mesmo prédio, e acho que esse espírito é o que nos dá segurança e tranquilidade para subir ao palco e dizer para o público “boa noite, nós somos o Viper”. É claro que há brigas, discussões eventuais. Mas o amor está lá, sólido, há muito tempo. Amizades com mais de vinte anos só sobrevivem quando os envolvidos são honestos, têm bom caráter, são sinceros. E isso eu tenho orgulho de dizer que a gente têm.

Sem querer ser ‘cabeça’ (e já sendo), acho que o público se identifica com isso. Não sei em que nível, se é consciente ou não, mas a verdade é que pude perceber durante essa turnê que nosso público é muito parecido com a gente. Uma banda só pode ser considerada bem sucedida quando cria essa relação de identidade com o seu público. Eu não sei dizer o que é, mas eu sei que tem algo que nos une. Talvez seja o modo de ver a vida, um pouco diferente das bandas de rock convencionais. Realmente não sei. Se algum psicológo estiver lendo isso, por favor deixe um comentário. Obrigado.

Na plateia, gente de todas as idades. Alguns mais ‘tiozinhos’, que queriam voltar aos ‘velhos tempos’ (engraçado como a nostalgia é sempre ‘positiva’, temos a tendência de só lembrar das coisas boas); outros, mais novos, fãs tardios, recentes, provavelmente graças aos comentários nostálgicos do pai ou de um irmão mais velho. Ou, quem sabe, encontraram vídeos antigos do Viper na internet; ou, ainda, fãs do Andre que passaram a conhecer a banda depois que descobriram que era a ‘primeira banda do Andre’, sei lá. Não sei como vieram a conhecer o Viper, mas agradeço o interesse. E o impressionante é que, fãs mais jovens ou mais velhos, praticamente todo mundo conhecia as letras das músicas, as paradinhas da bateria, os riffs de guitarra.

Ontem foi a despedida em São Paulo, um show que nem pensávamos em fazer. Já havíamos tocado na nossa cidade no início da turnê, mas como muita gente pediu, pensamos que seria uma forma de agradecer e presentear quem sempre esteve ao nosso lado. Fãs que, por alguma razão, haviam perdido o show anterior – ou que queriam ver essa loucura de tocar dois discos inteiros mais uma vez.

Não preciso nem dizer que foi maravilhoso. Foi um show mais divertido, informal, um clima de festa mesmo. Infelizmente, por outro lado, teve um quê de melancolia por ser a última apresentação dessa turnê que vai deixar saudades. No primeiro show de São Paulo, estávamos filmando para um DVD (‘Viper Live in São Paulo sai em abril de 2013, se tudo der certo), então nossa performance teve que ser mais, digamos, profissional. Ontem, a festa era nossa e dos fãs. Por isso foi tudo mais solto, mais leve… mais Viper.

Depois do show, encontramos os fãs para bater papo, tirar fotos e autografar discos. E lá eu tive a certeza do que já mencionei aqui antes: nossos fãs são parecido com a gente. Será que isso acontece com todas as bandas? Não sei, nunca toquei em outra banda.

A coisa que mais me marcou nesses encontros com fãs, no entanto, foi o carinho com que sempre nos trataram e o amor que sentem pela banda. Desculpe ser brega mais uma vez, mas fiquei realmente emocionado com isso. As pessoas pediram tantas vezes para a gente voltar definitivamente, que eu vou ter que ter um papo muito sério com Andre, Pit, Hugo e Guilherme…

E também tenho que mencionar que não é apenas o pedido para a gente voltar, mas a forma como os fãs e os amigos fazem isso. OK, acho que há realmente uma carência de bandas de rock, mas esse sentimento está muito além de uma questão de mercado: há algo especial entre essas pessoas e essa banda. Por isso aproveito para agradecer a todos que estiveram nos shows da turnê. Vocês tornaram isso possível. Não foi apenas o Viper que voltou: foram vocês que voltaram com a gente. Obrigado por fazerem tudo isso virar realidade.

Obrigado também ao Wikimetal, Nando, Daniel e Rafael, que também são nossos irmãos (um deles, inclusive, literalmente) e que conseguiram colocar esse projeto de pé. Se há uma palavra que pode definir essa relação é ‘confiança’. E confiança não é algo que se compra. Assim como não se compra a amizade e o amor que temos por vocês. Especialmente o Rafa, numa fase tão marcante de sua vida. Obrigado mesmo.

Obrigado também a todos que trabalharam ou estiveram envolvidos profissionalmente nessa turnê. Ari, Ozzy, Daniel, Toninho, Gargamel, Vera, Anderson, Maurício Eça & Dogs Can Fly, produtores locais e todos os outros técnicos, iluminadores e motoristas que viajaram conosco. Vocês foram incríveis em todos os sentidos, principalmente naquele que é mais delicado… a paciência.

E, finalmente… obrigado, Martin! (Essa piada nunca soou tão verdadeira como agora…) Mas agradeço não apenas ao Guilherme, mas ao Andre, Pit e Hugo, brothers que dividiram comigo o palco nesses quase trinta shows. Amo vocês como irmãos, foi muito bom voltar a conviver com caras tão especiais. E já vou avisando que vocês não vão conseguir se livrar de mim tão cedo.

Hoje, um dia depois do show, ainda estou sonhando acordado. Como em uma daquelas histórias do Borges, em que se sonha sobre o próprio sonho. E de vez em quando invade a minha cabeça uns flashbacks do público cantando ‘olê, olê, olê, olê… Viper… Viper’, o que aconteceu várias vezes antes e durante os shows. E tenho certeza de que esse som continuará no meu ouvido como um mantra inesquecível, dia após dia, para sempre.

Fonte: http://www.palavradehomem.com.br/?p=2059

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