Histórias da estrada: Uma tarde ao vivo na TV

Histórias da estrada: Uma tarde ao vivo na TV
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Um amigo surpreso me perguntou outro dia se já fui baixista.

Apesar de ter gravado baixo em um dos meus álbuns, falei que não e perguntei o porquê da questão.

Falou que viu um vídeo do Angra onde eu tocava baixo.

– Ah, tá… respondi.

Então veio aquela lembrança.

Isso vem dos tempos remotos que podíamos fazer as coisas sem se preocupar que elas estariam para sempre no mundo virtual…

Na real, todo artista e banda acaba topando muita coisas para se promover. Eu entendo, faz parte do music business, do marketing musical e do dia a dia de qualquer artista.

As gravadoras têm os divulgadores, assessores de imprensa contratados para cavar pauta e colocar os artistas no maior número de programas de TV, mídia impressa e rádio possível.

Certa vez – por volta de 94 –  fomos convidados para ir ao Canal Mulher (o qual nem sei se ainda existe) para um programa vespertino feito para donas de casa.

Cenário típico de “sala de estar de novela”, com sofás da moda, apresentadora elegante, merchan constante de pomadas anti rugas ou faqueiros milagrosos.

Nós, conjunto Angra, como nos chamavam, reconhecidamente do heavy metal, fomos convidados ao programa para divulgar nosso recém lançado álbum, Angels Cry.

A gravadora fazendo seu papel, tentando nos colocar no desejado mainstream, e nós como novatos obedecendo o que deveria ser a regra da indústria fonográfica na época.

Chegamos cedo para o programa, já meio contrariados pois sabíamos que o canal era pequeno, não tinha nada a ver com nosso estilo e iríamos perder nosso tempo com aquela ideia de que “vale tudo pra ficar famoso”, obviamente vinda da gravadora.

O Ricardo Confessori, baterista, já totalmente contrariado, nem se deu ao luxo de ir na transmissão ao vivo na tal Rede Mulher.

Cá entre nós, ele estava certo…

Desfalcada, a banda chegou ao programa e como o divulgador não tinha avisado se era entrevista ou se iríamos tocar, o Rafael, guitarrista, nem levou a própria guitarra.

Eu digo tocar, mas na real era a famosa dublagem estilo programa do Chacrinha, referência máxima da TV Brasileira naqueles tempos (acredite se puder!).

Como estávamos em uma  situação que não seria ideal  e pensando no nosso público (nós já tínhamos uma boa noção de posicionamento, público-alvo e nicho de mercado) resolvemos fazer o programa de uma forma que o tornaria divertido e debochado para o nosso público.

Invertemos os instrumentos.

Assim, não iríamos mostrar que estávamos fazendo qualquer coisa para aparecer (apesar de estarmos, de certa forma) e para as donas de casa e desocupados sentados no sofá assistindo àquele tipo de programa no meio da semana, à tarde, seria apenas mais uma banda nada a ver buscando mostrar seu material a qualquer custo.

Rafael, sem guitarra pegou o violão emprestado da dupla caipira que se apresentaria logo após a gente para não ficar de mãos abanando ao vivo na TV.

Até aí tudo bem, pois nós íamos tocar uma balada do álbum, que alegraria até uma vovó fazendo tricô na sala.

“Esses meninos cabeludos até que tocam bonitinho”, “essa rapaziada bonita…” diriam, olhando por cima dos óculos.

Ao vivo, sem bateria, sem baterista, com um violão caipira e eu de instrumento trocado com o baixista trocamos um breve bate-papo, aquele de segurar a risada com a apresentadora elegante.

Por fim nos posicionamos e aguardamos o disparo da faixa do CD.

Tudo pronto para a dublagem infame que por si só já era um mico, mas não havia mais fuga da situação.

Eis que o cara do áudio, que estava em outra sala e não podíamos vê-lo, erra e solta a música mais longa e rápida do cd.

Como era ao vivo, não tinha como voltar, reclamar ou mandar parar.

Seguramos o riso e fizemos o nosso melhor. Quer dizer, o nosso pior, pois não podíamos levar a situação a sério.

Já tínhamos uma base de fãs e seguindo nossos ideais não dava para levar aquela situação a sério.

Por milagre algum fã ou alguma vovó que nos achou “tocando até que bonitinho” gravou o programa em um vídeo cassete, (provavelmente vindo do Paraguai como era de costume) e revelou para sempre, para toda a humanidade, esse momento especial da carreira do Angra.

Eu lá com 22 anos acreditando na carreira, acreditando que dava para viver de música, bem quando eu tinha acabado de largar a biologia na USP.

Era a clara história de que o fim justifica os meios.

É divertido olhar para as coisas que fizemos para alcançar nossos sonhos.

Como dizem: o que vale é a jornada, as boas histórias para contar e não somente o resultado final!

Fonte: http://kikoloureiro.com/blog/historias-da-estrada-ao-vivo-na-tv/