1998 – Entrevista Revista Heavy Melody

Embora já tenhamos entrevistado o Angra em nossa primeira edição, na ocasião do lançamento de Holy Land, muitas águas rolaram após a mesma, além disso Andre Matos foi o único que não havia participado da entrevista anterior, por estes motivos resolvemos entrevistá-lo para desfazer mágoas, esclaracer alguns fatos polêmicos e também responder algumas curiosidades. Confira esta interessante entrevista:

HM: Chamou muito a atenção o estilo da produção de Fireworks; qual foi a grande diferença entre se trabalhar com Charlie Bauerfeind e Chris Tsangarides?

AM: O Charlie foi uma escola muito importante, ele é alemão e, sendo assim, muito perfeccionista, por outro lado Chris trouxe mais naturalidade, suas produções têm um estilo mais “livre”, aprendemos que isso também é muito importante. Com ele era assim, não haviam concertos de estúdio, tentávamos no máximo 2 vezes cada música, se tava saindo errada, ele deixava para o dia seguinte, e foi justamente isso que conferiu mais energia ao álbum, mas quero deixar claro que apenas conseguimos isso graças a experiência com Charlie, pois fizemos mais de cem shows durante a turnê de Holy Land, que nos capacitou a fazer uma gravação desse tipo.

HM: Chris já produziu bandas de respeito e chegou a participar de uma faixa no Painkiller, o que também acontece no Fireworks. Qual foi sua contribuição em tais faixas e como se sente trabalhando com um cara como o Chris?

AM: Foi um grande orgulho, uma conquista, pois aprendemos muito com esse cara. No caso do Fireworks ele participou das letras nas músicas “Petrified Eyes” e “Mystery Machine”.

HM: Quais são, respectivamente, suas músicas favoritas do Fireworks, do Angra e do Viper?

AM: Do Fireworks acho que a Lisbon, quanto ao Angra, isto é muito difícil pois todas têm um valor muito particular para mim, agora do Viper, sem dúvida nenhuma “Soldiers of Sunrise” e “Prelude to Oblivion”, que até hoje acho maravilhosas.

HM: Antes você ainda cantava “Living for the Night” nos shows…não sente saudades de cantar estas músicas nos shows com o Angra?

AM: Claro que sinto saudades, mas em respeito aos meus atuais companheiros eu achei que não tinha mais a ver, pois eles não fizeram parte desse passado e eu não quero ser o estrela da banda, somos uma equipe. Mas temos planos de regravar a “Soldiers”, seria do caralho!

HM: Seus fãs gringos conhecem seu passado no Viper? Quais foram seus maiores momentos com o Viper?

AM: Alguns conhecem, mas a maioria me conheceu no Angra. Minhas melhores recordações são de um show em Santos, que foi do caralho, e a abertura para o Motörhead no Ibirapuera, que foi o primeiro show mais
importante, o primeiro grande show de nossa carreira.

HM: Nos shows do Viper só haviam “headbangers” e nos do Angra tem muita “menininha”, você sente essa diferença de público?

AM: Concordo, mas era uma época diferente, não havia 89FM, muito menos MTV, então não tinha divulgação como hoje, mas além dos adolescentes nunca faltam headbangers nos shows do Angra.

HM: Na época do lançamento do Holy Land você concedeu uma entrevista na Rock Brigade onde desceu a lenha no Helloween…só agora que se redimiu nessa última entrevista de lançamento do Fireworks, mas até então muitos fãs do Helloween ficaram com suas palavras atravessadas na garganta (inclusive eu), logo, se revoltaram ao vê-lo no show do Gamma Ray cantando “Future World”, o que pareceu puro oportunismo, qual sua opinião sobre isso?

AM: Esta entrevista eu confesso, foi uma grande cagada que eu fiz, embora tenha sido mal conduzida pelo entevistador, eu deveria deixar claro que me referia ao atual Helloween, pois apesar de não ser um fanático pela banda eu adoro o Helloween antigo mas não o atual. Na minha opinião o Helloween acabou com a saída de Kai Hansen e Michael Kiske, embora tenha ficado Weikath e Markus, a magia não é mais a mesma, havia uma química que desapareceu com a saída dos dois, assim como aconteceu no Iron Maiden após a saída de Bruce ou ainda no Judas com a saída de Rob Halford, e o meu grande erro foi não especificar a qual das fases do Helloween que eu não gostava. Isso tudo teve uma repercussão que eu não esperava e pegou muito mal pra mim, por isso que faço questão de esclarecer. Quanto ao show do Gamma Ray, eu sou muito amigo de Kai Hansen e ele me pediu pra participar em alguma música para ajudá-lo, pois sua garganta não estava boa. No show de Santos então, nem se fala, ele estava muito mal, para ajudá-lo cantei músicas que nem sabia a letra, como “Heaven Can Wait” e “Space Eater”, daí usei a famosa “embromation” que é minha especialidade desde a época do Viper. Mas tudo isso também tem um motivo por trás, naquela época eu estava puto com o Michael Weikath pois ele estava falando que o Angra estava tentando copiar o Helloween, mas conversamos recentemente sobre estes problemas e tudo foi esclarecido entre nós, só para provar que está tudo bem entre as duas bandas, o próprio Michael Weiki me convidou para participar de seu futuro projeto solo.

 HM: Você considera Holy Land um disco de heavy metal?

AM: Sim, considero também um álbum de heavy metal, embora ainda muitos julguem progressivo ou world-music, devo lembrar que o estilo da produção influenciou no resultado final das gravações e talvez isso contradiga minha opinião, mas o resultado das músicas nos shows poderiam justificar.

 HM: Em Freedom Call vocês já demonstraram uma certa “volta às raízes”, o que se acentuou nesse último trabalho. O que aconteceu, as “misturebas” não deram re$ultado?

AM: Não, não é que as “misturebas”, como você fala, não tenham dado resultado, tanto que elas ainda aparecem em “Gentle Change”, simplesmente quisemos fazer algo mais cru, mais metal, o que não impede que a gente faça novas experiências no futuro.

HM: Falando em Freedom Call, uma curiosidade, este EP acompanha parte de um acústico que fizeram na França, certo? Nas faixas “Angels Cry” e “Never Understand”, o que você tentou transmitir com “Mi Paraguay querido” e “Ay ay ay muchacho”? Você não acha isso tudo muito ridículo?

 AM: Cara, rolava um clima muito legal naquele momento e só quem estava lá sabe o que estou dizendo. Isso foi muito engraçado pois estava um ritmo latino e então resolvemos fazer uma gozação, foi apenas isso.

HM: Ainda ouve Viper ou bandas nacionais daquela época como o Platina, Azul Limão, Taurus, Chave do Sol?

AM: Sem dúvida, quando estou em casa sempre pego algum vinil destas bandas para ouvir, sem falar que passamos muito tempo dentro de ônibus de viagem, e para descontrair eu e o Luís adoramos ficar lembrando e cantando músicas do Salário Mínimo, Harppia, etc…aliás, ainda estes dias eu estava querendo ouvir minha fita  do Harppia e não encontrava, vou tentar  ver se ainda acho o vinil para comprar. Ah! outra coisa, o Robson (Performances/Acid Storm) hoje trabalha na equipe do Angra, eu era puta fã do cara e isso é uma honra pra mim, ele também costuma ajudar eu e o Luís nas cantorias (risos).

HM: Na época do Holy Land você alegou que as “misturebas” seriam para valorizar a cultura musical do Brasil. Por que então não gravam alguma espécie de tributo para homenagear essas bandas que começaram o movimento do metal no Brasil?

AM: Cara, é muita coincidência mas antes mesmo de você falar a gente já tinha comentado esta idéia dentro da banda, está nos planos mesmo, e tenho muita vontade de fazer essa homenagem porque, honestamente, se eu sou alguma coisinha hoje, eu devo a esses caras e gostaria muito de pagar um tributo a eles, pois quando eu tinha 13, 14, 15 anos estes caras me inspiraram, estes caras me fizeram acreditar que daria pra fazer alguma coisa na vida nesse sentido. Eu saía daqui de casa e ia assistir show deles em tudo que era lugar, Parque da Aclimação, Parque do Estado, onde tinha Praça do Rock eu tava ind, Vila Paulistana, Mambembe, quem viveu esta cena em São Paulo sabe do que estou falando, isto é até uma prova que o Angra não é uma banda de playboyzinho, que tinha grana e aprendeu a tocar e o caralho, acho que a gente tinha uma estrada mesmo, viveu o movimento, aquela era uma época muito legal que se perdeu com o tempo, havia uma magia, era uma verdadeira tribo, hoje em dia banalizou, é mais indústria mesmo. E eu tenho orgulho em dizer que participei daquele movimento, então estas bandas antigas do S.P. Metal   o Harppia, são os grandes responsáveis pelo que rola hoje, eles foram os pioneiros mesmo, então teria vontade de gravar “Salem” do Harppia, “Portas Negras” do Centurias, “Matheus Hopkins” do Virus, as músicas do Avenger, do Performances, Karisma, que já cantava em inglês, tem várias outras como o Mammoth, Platina, Made in Brazil, e seria muito bacana fazer uma seleção disso tudo, não só em termos de Brasil mas seria muito interessante lançar lá fora, para que os caras soubessem que aqui há uns 13 anos atrás rolava alguma coisa, inclusive eu considero Viper e Sepultura já filhos desta geração.

HM: O Angra é apontado como uma banda “montada”, de “empresário”, o que poderia dizer a respeito?

AM: Bom, se for pensar bem, todas as bandas são “montadas”, na época do Viper, tudo bem, eu cresci junto dos caras e tal, e quando eu ia montar o Angra eu realmente pensei em chamar amigos para tocar junto comigo, mas nem sempre seu melhor amigo é o melhor baixista, etc…depois da experiência com o Viper, eu aprendi que tem que saber separar amizade e banda, pois se a banda vai ser seu futuro isso é muito importante, senão acaba acontecendo o que aconteceu da outra vez, e isso eu não quero, mas de qualquer forma todos já nos conhecíamos indiretamente ou não, logo este boato não tem muito fundamento.

HM: Muitos criticam sua atuação nos shows, apontando gafes e desafinações, você assume essas falhas?

AM: Não, não concordo porque essas pessoas que criticam nunca sabem como o vocalista está naquele dia, e o vocalista depende muito de seu estado de saúde, por exemplo, naquele show da Charles Miller eu estava com 38ºC de febre e ninguém sabia disso, mesmo assim tive que fazer o show, essas coisas influenciam muito, sem falar que ninguém está livre disso pois já cansei de ver meus grandes ídolos também darem mancadas em show, você tá sujeito e isso é normal.

HM: Quais suas influências pessoais principais?

AM: Basicamente o heavy e o clássico, enquanto vocalista, Bruce, Eric Adams, Rob Halford, Geoff Tate, também adoro Black Sabbath e Led Zepellin, mas a banda que acho perfeita até hoje é o Deep Purple, já tecladistas, gosto muito de Vinie Moore, Jon Lord e Rick Wakeman, que para mim continuam sendo os grandes mestres.

HM: Na sua opinião, existe alguma banda brasileira de metal em ascensão, alguma que você já tenha ouvido falar ou que tenha chamado sua atenção? (não vale falar Henceforth)

AM: Mas meu irmão não está mais no Henceforth, de qualquer forma eu acho a banda ótima e quando estamos em turnê sempre nos perguntam sobre o Henceforth, a curiosidade dos gringos é muito grande, também ouço falar muito do Krisium, os caras merecem pois batalharam duro e estão de parabéns, pois realmente estão conseguindo alguma coisa lá fora. Além destas, o Dr. Sin, o Wizards, e principalmente o Dark Avenger, tenho ouvido falar bastante. Ainda em termos de América do Sul, o Horcas da Argentina também está com certo nome.

HM: Na ocasião da última visita de Bruce Dickinson ao Brasil, você, o Rafael e o Kiko participaram de uma jam na 89 FM junto com o Bruce, que, em plena execução de “Tears of the dragon” chegou a chamar a atenção de Kiko, perguntando ironicamente a respeito do solo que ele estava esquecendo. O que realmente aconteceu, ficou um clima ruim entre os dois naquele momento?

AM: A gente estava ensaiando e ficamos sabendo dessa jam praticamente em cima da hora, pegamos um puta trânsito a caminho da 89 FM e chegamos 20 min. atrasados. Como inglês é pontual, Bruce não gostou do nosso atraso, ele estava meio nervoso e de mal humor e isto piorou pois tava uma puta muvuca no estúdio, que já era minúsculo, abafado pra cacete, e além da gente, tinha um cara tirando foto pra um jornal e uma mina filmando pra internet, talvez isto explique a atitude do Bruce. Inclusive ele não me deixou cantar, puxou meu microfone para perto dele, e eu fiquei muito chateado pois ele é meu maior ídolo e eu não queria queimar o filme com ele, além do que, já não sabíamos direito a música, não ia rolar aquele puta solo grande com dois violões, então achamos conveniente tirar aquele solo e fazer umas improvisações meio reggae antigo que a música dele tem um lance meio gingado, e no fundo acho que o Bruce até acabou curtindo. Mas no final ficou tudo bem.

HM: Durante uma entrevista publicada na revista Roadie Crew, Ricardo Confessori deixou transparecer que a relação interna entre os membros do Angra não é das melhores. Comente a respeito.

AM: O Ricardo foi o último membro a se juntar à banda, ele veio do Korzus e demorou um pouco pra ele entender certas coisas e entrar no esquema da banda, na época da entrevista ele era a pessoa errada e na hora errada para representar a banda, mas depois do Holy Land ele próprio se sentiu um membro do Angra e tenho certeza que se a entrevista fosse hoje ele responderia bem diferente, pois hoje pode dizer que todos estão entrosados e temos um bom relacionamento, também, depois de tantos shows e tantos meses juntos dentro de ônibus de viagem, de duas uma, ou a gente se dá bem ou acaba se matando (risos).

HM: Falando sobre relação entre membros da banda, parece que desde a época do Viper você já não se dava muito bem com seus companheiros, chegando a tentar incendiá-los durante um show no Colégio Rio Branco numa noite de 1985. (risos) Comente sobre aquela curiosa e divertida ocasião.

AM: Mas agora com o Fireworks eu consigo (risos)…Essa noite foi terrivelmente inesquecível pois como naquela época eu gostava muito de Manowar eu entrava nos shows com uma tocha na mão, dava um efeito muito bacana , só que eu mesmo fazia essas tochas e não era nenhum perito e claro que isso ia acabar dando xabu algum dia, e no momento que entrei no palco e passei pela bateria, caiu um pedaço da tocha na caixa do Cássio, que se desesperou, e nosso roadie que era o Valdério, e que depois virou batera do Viper, pegou uma baqueta e jogou o negócio pra frente pra tentar salvar a bateria, daí que espalhou todo o fogo no palco. Interrompemos a “Soldiers” e quando o pânico acalmou e tudo parecia resolvido recomeçamos o show, daí o cara da empresa de som notou que parte do seu equipamento tinha sido estragado pelo fogo, então subiu no palco para me bater e o show parou de novo, pois um amigo subiu pra me defender e os dois armaram uma luta de boxe no palco. Então finalmente tocamos “Soldiers” pela terceira vez e o show acabou rolando, foi hilário, no final até engraçado, mas não havia extintor de incêndio no local e poderia ter sido uma catástrofe, eu até me arrepio quando lembro. Além desta, teve outros acidentes, como é sabido, eu enxergo mal e uma vez eu caí num buraco no palco e sumi, continuei cantando no chão. Fora as vezes que dei mosh e não me devolveram ao palco, num show em Mogi me machuquei feio pois a galera me puxava pra baixo e os seguranças me puxando pra cima, foi tortura medieval, acho que cresci uns dois centímetros. Tá vendo essa cicatriz na minha testa? No primeiro show que fizemos em Paris, o Kiko abriu minha testa com o braço da guitarra, senti um troço quante na minha cara e depois não enxergava mais nada, pois quando o sangue entra no olho você fica cego…mas tudo isso faz parte, são os ossos do ofício.

AM: Antes de encerrar, só uma coisa, vocês chutaram o balde naquela entrevista do Dark Avenger, hein? Vocês conduziram as respostas para ridicularizar o Angra, e este tipo de atitude é totalmente anti-profissional, pois acaba até criando intriga e atrito entre as bandas, eu nem conhecia os caras e poderia ter ficado com bronca deles, aquilo também não foi nada ético.

HM: É verdade, reconheço que você tem toda razão e peço desculpas por isto, mas naquela época ainda estávamos engasgados com o lance do Helloween, além disso você não havia esclarecido tais infelizes declarações e aquilo foi uma forma de desabafo em nome dos fãs de Helloween ofendidos, tentando defender a honra da banda de algum modo, mas também pisamos na bola, então digamos que estamos quites, ok?

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