2013/12/20 – Entrevista: Andre Matos – Nostalgia, desavenças e as vantagens da carreira solo

Por: Lizandra Pronin

Foto: Divulgação

Andre Matos é um músico, cantor e compositor de talento que começou a carreira cedo, aos 13 anos, e parece adorar o que faz.

Nos últimos dois anos, praticamente não teve folga: realizou a turnê de reunião com o Viper, lançou um álbum solo e acaba de encerrar a turnê comemorativa dos 20 anos do “Angels Cry”, álbum que ganhou comemoração por parte do Angra quase que ao mesmo tempo. Obviamente, falamos sobre isso na entrevista que segue.

Simpático, o músico nos atendeu para uma conversa ao telefone e falou sobre nostalgia, desavenças e as vantagens de ter uma carreira solo. Percebe-se alguma mágoa ao falar do Angra, sua ex-banda, como se o músico desejasse que tudo fosse muito diferente. Mas não é.

Dá para notar também que André Matos é um cara exigente quando o assunto é profissional. Isso talvez o torne um pouco difícil. As coisas funcionam melhor quando são do jeito dele. E do jeito dele parecem estar funcionando muito bem. Confira abaixo a íntegra dessa conversa.

Primeiro foi a turnê comemorativa com o Viper e agora uma turnê que celebra toda sua vida profissional desde o Viper, Angra, Shaman e a carreira solo. Esse período tem sido bastante nostálgico. Como é reviver o passado dessa forma, em cima do palco, lidando com a expectativa dos fãs?

Andre Matos: Foram dois anos muito intensos de trabalho, praticamente sem parar, emendando turnê com gravação. Mas ao mesmo tempo que foram anos nostálgicos, não deixou de acontecer a gravação de um disco novo, o “The Turn of the Lights”, lançado no final do ano passado. A turnê dele, aliás, a gente só fez esse ano.

Sobre a turnê com o Viper, foi para comemorar os 25 anos do primeiro álbum, o “Soldiers of Sunrise”. A gente tocou os dois álbuns do Viper que eu gravei e foi um sucesso. A gente imaginava que seria uma turnê de um mês e acabamos esticando até dezembro. Achei melhor deixar a divulgação do disco solo para 2013. E foi uma boa ideia, deu tempo de se recuperar da turnê do Viper e começar uma nova turnê até maior com a banda solo.

Justamente por ter feito o tributo ao Viper e ele ter dado tão certo, veio a ideia de fazer um tributo ao “Algels Cry” do Angra, que foi um disco ícone, que marcou uma época.

Acho que a turnê com o Viper foi mais nostálgica, tocar os dois primeiros discos na íntegra. Mas essa agora, nem tanto. O show é dividido em dois módulos tem uma parte com as músicas novas, tem clássicos de toda minha carreira e uma parte dedicada exclusivamente ao “Angels Cry”.

Mas acredito que essa segunda parte do show acaba sendo nostálgica, tanto para você quanto para os fãs. Afinal o álbum tem 20 anos.

AM: Muita gente daquela época acabou se emocionando com essa parte do show. Mas tinha muita gente nos shows que nem viveu aquela época. Vimos um público renovado, que conheceu as músicas através da internet.

Isso me lembra das turnês que muitas bandas têm feito como, por exemplo, o Iron Maiden, que recria turnês de discos clássicos e acaba por atingir um público que eventualmente nem havia nascido na época do lançamento do álbum…

AM: Acho isso muito válido. É muito legal. A gente não pode desprezar os grandes álbuns, os grandes trabalhos que a gente fez. Pode ser que o álbum que eu fiz no ano passado venha a ser um clássico daqui a dez anos, eu não sei. É preciso de tempo para saber se um disco será um clássico. E tanto na turnê do Viper quanto tocando o “Angels Cry” isso foi muito evidente. Há uma força muito grande nessas músicas. As pessoas têm um apego muito especial pelo repertório destes discos. E é legal poder oferecer isso na íntegra para as pessoas. A pessoa poder ir ao show e assistir do começo ao fim a apresentação do disco. E modéstia à parte, a banda solo está tocando as músicas perfeitamente. De repente até superando as expectativas de quem foi assistir.

Como foi a turnê? Qual a avaliação geral que você faz dela?

AM: No começo a gente estava um pouco desconfortável com o repertório. Eu mesmo não sabia se ia conseguir dar conta do recado 100%. Se ia conseguir cantar o “Angels Cry” do início ao fim e ainda por cima na segunda metade do show.

Eu não sabia se ia conseguir colocar a voz no mesmo lugar, usar o mesmo timbre, a mesma técnica. Eu reconheço que os primeiros shows foram um laboratório. Mas é interessante como tudo se resume à memória muscular. Assim como com um atleta quando volta a treinar e pega a forma rapidamente, aconteceu nessa turnê. Agora estou muito mais afiado do que estava no início.

E a gente escolheu São Paulo para encerrar essa turnê por que é a nossa casa. A cidade recebeu um dos primeiros shows da turnê. Queríamos voltar com o show amadurecido.

O Angra também realizou uma turnê comemorativa desse álbum, que ganhou um registro em DVD. De certa forma, os fãs ganharam uma dupla comemoração.

AM: (interrompendo) Essa é uma maneira positivista de ver a coisa…

Você pensou que poderia ser estranho duas bandas comemorando o mesmo álbum?

AM: Sim, sem dúvida nenhuma. Vale dizer que a gente iniciou a turnê antes do Angra. A gente preparou isso bem antes, teve essa ideia antes. Houve, por vias indiretas, convites para que eu participasse dessa turnê do Angra. Não sei se chegaram a convidar o Luis Mariutti [baixista do Angra na época do disco]. Mas enfim não era uma coisa que me interessava fazer. Eu tenho a minha banda. Aliás, com músicos que já fizeram parte do Angra. Então tinha tudo a ver a gente fazer essa turnê.

Você achou ruim quando o Angra anunciou a turnê comemorativa do “Angels Cry”?

AM: Não, de maneira nenhuma. Eles têm todo o direito de fazer essa turnê. Sem dúvida nenhuma. É um legado, uma herança que nós dois [Ele e o Angra] dividimos. Nessa turnê especificamente, eles tocam músicas que são de autoria só minha e eu toco algumas que são de autoria deles.

Normalmente eu só toco músicas que são de minha autoria. Mas tem uma diferença, eu apresentei o álbum na íntegra, na ordem das músicas. Acho que não foi o que eles fizeram. Eu acho que se você se propõe a fazer um tributo, o legal é tocar na íntegra. Como foi com o Viper.

Você falou que houve um convite, ainda que indireto, para participar da turnê do Angra. Muitos fãs esperavam que isso acontecesse…

AM: (Interrompendo) Por isso que eu disse que você abordou o tema de uma forma positiva, dizendo que os fãs ganharam uma comemoração em dobro. Mas tem fãs que não acham isso. Tem fãs que acham que nós deveríamos estar juntos. Os fãs têm que entender que nem tudo passa pelo lado musical. E nem tudo passa pelo lado financeiro. Existem outros componentes aí.

Mas é possível no futuro haver qualquer tipo de reunião, ainda que seja apenas comemorativa, talvez nos 20 anos do “Holy Land” ou do “Fireworks”?

AM: A gente nunca pode dizer. Eu não posso afirmar isso categoricamente, 100%, que não. Não sei. No futuro, pode haver algo. Depende muito do momento, dos interesses, da disponibilidade, depende do entendimento entre as pessoas, que eu acho que é o principal.

Você ouviu o Angra com o Fabio Lione? O que achou?

AM: Ah, eu ouvi alguma coisa sim. Principalmente por que esse DVD foi lançado sem a minha autorização. Têm músicas minhas ali e eu fui obrigado a ouvir pelo meu advogado. Uma coisa chata conhecer o trabalho dessa maneira. Mais uma vez houve um mal entendido aí, pois eles já haviam lançado um ‘best of’ lá no Japão sem a minha autorização, com as minhas músicas. É por essas e outras que a gente acaba não se entendendo. Acaba não havendo confiança entre as partes.

Fora isso, o que você achou do Lione no Angra?

AM: Fora isso, particularmente eu adoro o Fabio. É um cara muito legal, é amigo meu. Acho que o Fabio não vai cair na mesma besteira que outros caíram quando me substituíram em algumas bandas. Aquela coisa de me criticar para tentar angariar atenção para eles próprios. É uma defesa, eu acho. Você critica por medo de que te comparem com o cara. O Fabio é um cara maduro o suficiente. É um cara por quem eu tenho o maior respeito. E eu acho que é recíproco.

Eu acho que como vocalista ele é irrepreensível. Se ele encaixa no Angra ou não, não cabe a mim dizer. Nem me interessa muito julgar isso. São os fãs que vão julgar, que vão gostar ou não…

Bom, então chega de Angra…

AM: É, por que se não eu vou dizer de novo que o Angra deveria acabar…

Com o fim da atual turnê, quais os planos para o próximo ano? Já há previsão para um novo disco solo?

AM: Não sei. Nada planejado por enquanto. Foi tudo tão intenso desde o início de 2012, a gente nem parou para respirar direito. Teve gravação, turnês… Com o show em São Paulo a gente encerra uma etapa longa de trabalho. Será um show especial [a apresentação aconteceu no dia 15 de dezembro na capital paulista, a entrevista foi feita uma semana antes].

E depois disso? Férias?

AM: Pelo menos até o Carnaval. O Brasil no ano que vem vai ser complicado. Tem carnaval, Copa… Os planos ainda são incertos para o ano que vem. A gente ainda não sabe se vai parar para se dedicar a um projeto novo, começar a compor um disco novo.

Tem muitas cidades que a gente não passou com essa turnê. É um dilema se a gente estende a turnê para cobrir os lugares onde a turnê não passou… A gente vai fazer um balanço assim que terminar a turnê para decidir que rumo tomar no ano que vem.

Mas já há material novo?

AM: Tem. Temos coisas guardas, temos sobras que podemos aproveitar. Mas se você me perguntar se vou entrar de cabeça numa nova produção a partir de fevereiro, eu não sei te responder ainda.

Mas esse material segue a linha do “The Turn of the Lights”?

AM: Essa pergunta é boa, por que eu nunca sei o que vem por aí. O “The Turn of the Lights” foi uma incógnita. A gente colocou as coisas na mesa e viu que receita usaria com os ingredientes. Para um novo disco, já temos alguns ingredientes estocados. Sem dúvida vamos ter que ir atrás de alguns outros. Agora, a receita da preparação do prato final ainda não se sabe qual será. Isso geralmente acontece de improviso.

O material ainda está bruto…

AM: Algumas coisas estão até avançadas, mas não necessariamente vão continuar desse jeito. A gente sempre tem a liberdade de mudar. Até por que uma sobra de dois anos atrás, por exemplo, não vai encaixar perfeitamente numa linguagem mais atual. Sempre existe uma evolução de etapa para etapa, de período para período. E eu não gosto de ficar me repetindo muito.

Você pretende manter a banda que o está acompanhando na turnê para um novo disco?

AM: Sim, a mesma banda. Eu estou muito satisfeito com eles.

Vocês possuem um bom entrosamento, a turnê foi bem sucedida e isso cria uma cumplicidade entre os músicos, acredito que isso seja positivo para começar a trabalhar em um novo disco…

AM: Tem uma coisa que é bacana de ter banda solo. No início foi difícil para mim. Eu era o membro de uma banda e passei a colocar o meu nome na frente, é uma exposição muito grande. Uma responsabilidade quadruplicada. Antes eu dividia a responsabilidade com os outros e agora recai tudo sobre mim. E é o meu nome que está em risco. É preciso ter atenção redobrada em tudo o que se faz. Colocar o seu nome tem um preço. Mas ao mesmo tempo tem suas vantagens. Principalmente do ponto de vista do convívio interno. Você resolve os problemas e atritos de uma maneira mais simples.

Mais simples do que era no Angra, no Shaman e no próprio Viper…

AM: Pois é. Quando as pessoas não entram num acordo, não entram mesmo. E aí começa uma série de infantilidades, brigas de ego. Em carreira solo é muito mais fácil, você chama cada um e resolve o que estiver causando o problema. É como um time de futebol onde cada um sabe exatamente qual é a sua posição dentro de campo. E um não atrapalha o outro.

Para você têm funcionado melhor assim…

AM: Tem funcionado muito melhor assim. Quem estiver satisfeito que continue e quem não estiver, fique à vontade para procurar seu caminho. O Eloy (Casagrande), por exemplo, saiu para tocar no Sepultura e foi numa boa. Ele até ficou chateado de ter que deixar a banda. Mas era uma progressão natural que ele teria de fazer. No final das contas essa é uma vantagem de ter a carreira solo. Isso não se torna um problema. É mais fácil administrar questões internas na banda.

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Fonte: http://www.territoriodamusica.com/noticias/?c=34480

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