2014 – Do Clássico Ao Metal, Sem Choro – Entrevista Andre Matos

ANDRE-ENTREVISTA

O clamor dos fãs gaúchos ganhará o reforço do pranto dos anjos para materializar um desejo: a vinda de Andre Matos, mais uma vez, para Porto Alegre. Percebendo a movimentação dos admiradores no extremo sul do país por uma apresentação do vocalista na turnê em que executa todo o Angels Cry, a Abstratti resolveu promover uma nova passagem do músico pela Capital. Desta vez, o recital roqueiro será no próximodomingo, dia 9 de novembro, às 21h, no Opinião (José do Patrocínio, 834).

Este deve ser um dos últimos shows da gira dedicada a revisitar o clássico disco lançado há 21 anos. Ademais das canções do consagrado primeiro registro do Angra, o repertório também deve incluir composições de outras fases da carreira. Antes de desembarcar por estes pagos, Andre  respondeu, por e-mail, algumas perguntas sobre a carreira, a atual tour e sua relação com a música clássica.

Paul Di’anno (ex-vocalista do Iron Maidem) reclama com frequência que as pessoas só querem ouvir material de sua antiga banda nos shows, não os trabalhos que ele realizou depois de sair da Donzela. Por você ter uma obra bem expressiva, principalmente com o Angra, sente algum tipo similar de pressão?

Andre Matos – De maneira alguma. A decisão cabe completamente a mim. Se amanhã resolver tocar na íntegra um álbum do Viper, Shaman, Virgo ou o que seja, em detrimento do repertório do Angra, não será isso que afastará o público fiel. A questão do Angels Cry neste momento é em função de uma celebração, de um álbum que sem dúvida nenhuma marcou época e do qual sou um dos principais responsáveis. E seria mentira dizer que não sinto um enorme prazer em tocá-lo ao vivo, compartilhando essa experiência com a plateia. E isso surgiu depois daquela turnê de reunião do Viper: daí a ideia de executar o Angels Cry na íntegra.

Conforme sua biografia no site, você começou estudando piano (um instrumento clássico) e, em seguida, já formou uma  banda de heavy metal (o Viper) com os amigos. Qual foi o estalo que mostrou a você que poderia haver semelhanças entre a música erudita e o som pesado?

Andre Matos – Não fui nem de longe o primeiro a ter este estalo. Antes de mim já havia o Queen, o Deep Purple, Led Zeppelin, Yes, Yngwie Malmsteen, Manowar… Acho que, inclusive, me influenciei bastante neles para criar meu “próprio” estilo. O que aconteceu foi que a música clássica me ajudou bastante a compreender o rock – e vice-versa. O Viper também, apesar de ser uma banda ainda “crua” na época, me proporcionou a liberdade de fazer as primeiras experimentações nesse sentido. A partir daí a coisa nunca deixou de se desenvolver. E ainda acho que há muito a ser explorado nestes dois universos – frisando que eles não são excludentes: há incontáveis outros estilos musicais que, se bem compreendidos e bem combinados, podem gerar um resultado legítimo.

Aliás, essa mistura clássico/metal foi uma constante em sua carreira. Profissionalmente, considera que foi um caminho fácil ou difícil de percorrer? Afinal, é uma sonoridade que demanda apuro técnico e estudo.

Andre Matos – Foi um pouco difícil no início, pois por vezes não conseguia me “encaixar” nem em um estilo nem em outro. No mundo do metal, era considerado demasiado “clássico”, já no mundo erudito, era visto como demasiado “roqueiro”. Com o passar dos anos as coisas foram se encaixando e hoje transito bem nos dois estilos. E o principal: acho que o ponto de fusão quase-ideal foi finalmente alcançado, depois de erros e acertos.

Voltando às bandas… O Viper apresentou seu trabalho ao mundo e, em seguida, o Angra referendou isso com ótimos discos. Porque, depois de sair do primeiro grupo para estudar música (composição e regência), achou por bem voltar a ter uma banda de rock/heavy metal?

Andre Matos – Não aguentava mais apenas o ambiente acadêmico, ao contrário do que imaginava. Depois de um ano comecei a sentir muita falta do que fazia antes: das gravações e dos shows. Não há dúvida de que a experiência ao vivo é completamente diferente, e eu já estava acostumado a isso. Esse foi o motivo principal que me levou a fundar o Angra.

Foi com o Angra, inclusive, que você colocou no mercado um dos discos mais emblemáticos de sua discografia até hoje: o Angels Cry (1993), no qual boa parte das composições tem participação sua. Pode-se dizer que o fato de ter recém conquistado o título de bacharel em Composição Musical e Regência Orquestral ajudou a criar canções tão inspiradas?

Andre Matos – Naquela época eu não passava de um estudante ainda. Estava, de fato, tendo contato com um universo totalmente novo e fascinante, e a vontade de colocar essa experiência em prática ditou muitas de minhas ideias que ficaram plasmadas para sempre no Angels Cry. A formatura ocorreu apenas anos depois, e posso inclusive afirmar que, por um breve período, o conhecimento musical exagerado chegou a prejudicar criativamente. Isso porque passa-se a analisar tudo, a racionalizar tudo. Tive de passar por um processo de “desintoxicação” da informação, para que pudesse me ver livre novamente a fim de não censurar minhas próprias ideias. Mas, creio que esse seja um processo que todos os profissionais enfrentem em algum momento de suas carreiras, independente de quais sejam. Hoje, provavelmente sei discernir melhor o que é teoria e o que é prática, e essa é uma das vantagens em se adquirir alguma experiência.

Tanto o Angra quanto você em carreira solo prestam tributo a essa obra clássica do heavy metal feito no Brasil (Angels Cry). Os músicos que participaram da gravação do disco, na época, ainda são amigos e aceitam isso numa boa?

Andre Matos – Todos aceitamos numa boa, e todos têm o direito de manifestar seu apreço por algo que fizeram juntos num determinado momento. Assim creio. Acabamos não mantendo uma relação de amizade após a ruptura (para dizer a verdade, ela já não estava presente desde antes da ruptura, o que foi um dos fatores motivacionais). Porém, acredito numa relação de respeito mútuo, mesmo havendo pontos de vista divergentes.

Depois do Angra, você continuou com o nome forte na praça atuando no Shaman,  projeto criado ao lado dos antigos parceiros Luis Mariutti e Ricardo Confessori. O grupo lançou quatro álbuns e se separou. Por que resolveram não dar continuidade com a empreitada?

Andre Matos – Bem, este é um assunto já esgotado na mídia, desde a separação da banda. Em breves palavras, não demos continuidade porque não pudemos, por motivos legais. O que praticamente me forçou a tomar a decisão de lançar a carreira solo.

Algum motivo para não querer mais trabalhar com banda ou simplesmente quis fazer uma experiência usando apenas o nome Andre Matos?

Andre Matos – Um deles é o motivo acima citado. Meu nome me pertence e eu não correria mais o risco de que alguém o tomasse. Por outro lado, houve uma grande vantagem: a carreira solo, além de proporcionar a criação de coisas novas, abriu um enorme portal para toda a obra da minha carreira anterior, incluindo todas as bandas pelas quais passei. A partir daí, é perfeitamente aceitável revisitar qualquer período e qualquer repertório com a propriedade de quem participou e colaborou na criação dos mesmos. Se estivesse no Shaman, por exemplo, seria no mínimo estranho promover um tributo ao Angels Cry. Na carreira solo, isso é algo absolutamente natural.

Atualmente, depois de todas essas vivências, quais você diria que são as vantagens e as desvantagens de estar num projeto solo?

Andre Matos – A única desvantagem é que toda a responsabilidade recai em cima de um só nome. Mas, na prática não é exatamente assim que acontece. Para mim, é imprescindível manter a estrutura e a atmosfera de uma banda de verdade, dando destaque aos músicos (dos quais tenho enorme orgulho), além de tê-los como parceiros no dia-a-dia – inclusive na hora de compor. Se não for assim, perde-se a graça. Mais do que isso: perde-se a alma. Tem de haver comunicação e cumplicidade entre músicos que tocam juntos. A amizade é uma consequência disso.

No pouco tempo que resta em 2014, teremos novidades sobre seu trabalho? E para o ano que vem, quais são os planos?

Andre Matos – São muitos, e serão comunicados na medida em que se concretizarem. Para este fim de ano queremos aproveitar ao máximo os últimos shows da turnê, os últimos shows tocando o Angels Cry na íntegra. É uma turnê que deixará saudades e estamos nos despedindo dela!

Por Homero Pivotto Jr.

 

Fonte: http://abstratti.com.br/do-classico-ao-metal-sem-choro-entrevista-andre-matos/

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