Andre Matos em review

ANDRE MATOS é dos nomes mais injustiçados no âmbito da música pesada, nacional ou internacional. Via de regra, ele é – muito equivocadamente – associado com o que há de mais tacanho em proposta sonora, especialmente no Heavy Metal. Basicamente, vêm à lembrança do público os “agudos” vocais que o tornaram famoso, e, associado a isso, todo o fenômeno do “metal melódico”, cujo boom dominou parte dos anos 90, e mesmo da década passada.

Conforme dito, nada mais longe da verdade!
A começar pelo fato de que associações e julgamentos tão rasos como esses não fazem jus à formação erudita do compositor e multi-instrumentista que Andre reconhecidamente é.
E a formação em si de pouco valeria se não utilizada como filosofia em suas composições. Porém, Andre sempre pregou, justamente, a variedade musical, especialmente dentro do âmbito do Hard/Heavy, como um caminho efetivamente prolífico – próprio para arejar um estilo tão saturado. Em suma: Andre é o oposto daquilo pelo que sempre o reconheceram.
E se alguém batalha pela DIVERSIDADE sonora dentro do Heavy Metal, este alguém é certamente referência deste blog. Se o faz dentro da atrasadíssima cena metálica brasileira, então o cara se torna praticamente um herói! Mas eis a batalha que Andre, conscientemente ou não, sempre levou a cabo com maestria!
Passarei rapidamente pelo seu início no VIPER. Ali, ficava visível uma forte aura a la Iron Maiden, naquele misto de metal com melodia, associado a uma veia quase punk (lembrar que o compositor principal era Pit Passarel, e não Andre, cuja marca se restringiu à épica “Moonlight”). Para o Brasil, e mesmo fora dele, a banda já soava original, e Andre um jovem talento vocal – mas não é exatamente por esse período que ele é aqui reverenciado.
Eis que veio o ANGRA, uma jovem seleção de músicos talentosos, com Andre à frente, o que resultaria no histórico debut “ANGEL’S CRY” (1993). Sim, aqui há de se concordar que o disco é um clássico seminal do chamado “metal melódico” – e sim, o Brasil, do expoente Sepultura, finalmente escrevia sua página na cena do metal tradicional, com louvor! Mas convenhamos que se tratava do que havia (e até hoje é referencia do que há) de mais sofisticado no melodic metal. E a mão de Andre foi fundamental na obra, atuando já como vocalista, tecladista e exímio compositor – fazendo uma sábia e bombástica fusão da música clássica com o Heavy. Tornava-se um prodígio!
No entanto, INOVAÇÃO mesmo, em seu ápice, em seu estado mais delicado e belo – mas também impactante como nunca antes – veríamos no épico “HOLY LAND” (1996). Falaremos mais deste álbum, mas fica a dica do que se fez de mais coeso, bonito, ousado e único na junção do Heavy Metal e da música BRASILEIRA (sem deixar a essência clássica de lado).
O Angra, com sua formação clássica de cabeças pensantes e exímios músicos, nos brindaria ainda com um trabalho finíssimo, que seria o derradeiro “FIREWORKS” (1998). Andre já era uma realidade criativa desde “Holy Land”, e seguia como figura principal. Infelizmente, desentendimentos em diversos níveis, passando pelo pessoal e pela própria administração da banda, fizeram daquela turnê a ÚLTIMA do grupo.
Cabe dizer que era uma época em que todos se perguntavam qual seria o limite, a evolução criativa… qual seria o próximo passo de uma banda como o ANGRA, com 3 discos tão variados entre si, tão ricos, e ao mesmo representando uma discografia tão fina e sólida, para uma banda tão jovem?
A resposta viria a seguir.
Acredito que outra grande dúvida gerada a partir do fim do Angra era se aquele jeito único, cativante e criativo de se fazer Heavy Metal era devido a uma “mágica” atribuída àquela formação, àquelas mentes que juntas assim funcionavam… ou se, separados, poderiam impor a mesma diversidade e ousadia sonora em suas respectivas carreiras.
Abre-se aqui o parênteses para dizer que o ANGRA fracassou miseravelmente nesse quesito. Capitaneado por Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (este remanesceu como “oásis criativo” da banda, a despeito da inegável qualidade técnica do primeiro), a nova formação com Edu Falaschi à frente teve o trunfo de manter o NOME (e isso pesa, inclusive em termos de sucesso). Além disso, no início de 2000 a onda do “metal melódico” ainda encantava boa parte do público, no que o grupo resolveu – equivocadamente, para nós – embarcar.
Logo, NÃO SE NEGA o sucesso da banda com sua segunda formação, apenas se diz que esta sem dúvida FRACASSOU no quesito CRIATIVIDADE.  O som foi empobrecido, o caminho era o de um clichê sem tamanho, feito para agradar ao jovem público metálico da época.  Os flertes com a música brasileira eram fracos, sem a mestria do passado.  O lado progressivo enveredou para um neoclássico forçado, típico da época e igual a milhares de outras bandas.  Afora a postura ARROGANTE dos integrantes, provocando os ex-companheiros, chegando a participar de ‘mesa redonda’ em revista para esculhambar o material alheio, etc.  Destaques mesmo foram RAROS –algumas boas canções de “Rebirth” (2001), uma linda participação de Milton Nascimento no pavoroso “Temple Of Shadows” (2004), e o competente e moderno “Aurora Consurgens” (2006), único disco que vale mais a pena ouvir.
A princípio, ANDRE MATOS manteve grande suspense sobre seu futuro com os demais egressos do Angra. No entanto, no ano de 2001 daria uma das maiores tacadas de sua carreira, que passou despercebido pelo grande público, numa daquelas injustiças que apenas mostram como os fãs são resistentes a novas sonoridades e grandes ideias. Falo do belíssimo disco auto-intitulado do projeto VIRGO, ao lado do produtor e companheiro Sascha Paeth.
Mais um grande acerto na carreira de Andre. Toda a delicadeza e sofisticação que já sabíamos ser típicas dele, agora se mostraram a serviço de um Hard Rock certeiro, que bebeu em ricas fontes que foram desde Beatles e Queen, passando pelo pop, soul, e até o gospel. Toda a diversificação sonora que sempre defendeu ali se encontravam em seu estado mais refinado e livre.
Faltava Andre mais uma vez colocar toda sua genialidade a serviço do Heavy Metal. E foi fazê-lo com o SHAMAN (nome de uma das melhores canções do antigo Angra), nova banda ao lado do baterista Ricardo Confessori, dos irmãos Luis e Hugo Mariutti, além do ótimo tecladista Fabio Ribeiro.
CRIATIVIDADE, finalmente, era a palavra de ordem por aqui. A história do grupo, no entanto, foi curta e dividida entre o marco musical chamado “RITUAL” (2002), de forte aura progressiva e indo beber nas fontes da world music (com especial apelo da música e tradição andinas), acompanhado de uma longa e vitoriosa turnê;  e “REASON” (2005), um disco mais direto, de aura sombria e dark, letras fortes e profundas, mas não menos progressivo, com as inovações trazidas para o nível da sutileza, das estruturas e arranjos pouco típicos das composições – uma marca de Andre! A turnê, no entanto, traria o FIM do Shaman (ou ShaAman, nome que passaram a utilizar neste segundo álbum).
Encerrando este capítulo, vale dizer que o Shaman seguiu ativo, anos depois. Ricardo Confessori conseguiu o direito de usar o nome, e convocou músicos da banda de hard rock Tempestt, além do excelente vocalista Thiago Bianchi (Karma, Firesign, Vox) para seguir com os trabalhos. Após um bom primeiro disco, “Immortal” (2007), fato é que o grupo não soube aproveitar todo o potencial de seus competentes integrantes. Thiago Bianchi, criativo e versátil, perdeu-se num Heavy comum, sem atrativos, e o líder Confessori passou a dividir atenções com o Angra, banda para a qual RETORNOU e cujo futuro é tão incerto quanto o do atual Shaman.
Andre, por sua vez, provara que a veia inovadora de se fazer música pesada (e música em geral) estava realmente com ele. Mas qual seria o novo projeto do maestro, vez que mais uma vez se via obrigado a deixar uma banda de sucesso… ?

Após passar por três bandas de sucesso, três das maiores e mais originais de nossa cena metálica nacional, afora um lindo projeto paralelo que foi o Virgo, ANDRE MATOS se viu simplesmente livre para tentar o que quisesse. No entanto, já deixava claro que não queria, novamente, fazer parte de uma “banda” propriamente dita – e após as traições que sofrera, tinha sua razão.

Vale dizer que, ao longo da década passada, Andre mostrou toda sua versatilidade fazendo inúmeras participações em bandas e projetos. Alguns questionáveis, talvez na tentativa de alavancar o heavy metal nacional. Mas, no geral, realizou feitos marcantes, participando de discos do projeto AVANTASIA,  da metal opera AINA,  do ousado projeto nacional HAMLET,  do disco ao vivo do DR. SIN,  do ótimo debut do KARMA (ironicamente, de Thiago Bianchi),  do thrash metal do KORZUS,  do hard em espanhol do AVALANCH,  só para citar alguns.  Participou ainda do disco solo de Luca Turilli (RHAPSODY),  e fez backing vocals no ótimo “Consign To Oblivion” do EPICA.  Nos anos 90 já havia deixado sua marca em colaborações com a exímia banda progressiva alemã SUPERIOR,  com os italianos do TIME MACHINE,  os latinos do NEPAL,  com o guitarrista brasileiro RODRIGO ALVES,  com o supergrupo prog LOOKING GLASS SELF (demo),  dentre inúmeros outros.
Saiu, ainda, do âmbito do hard/heavy, aparecendo nos discos do produtor CORCIOLLI,  do SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA (de seu amigo MARCUS VIANA, no lindo “A Leste Do Sol, Oeste Da Lua”),  no DVD da banda de blues Irmandade do Blues, sempre mostrando um lado eclético e sofisticado, que tinha – e sempre teve – tudo a ver com sua própria música.  O ápice de sua ousadia se deu quando interpretou o papel principal na rock opera “Tommy”, do The Who, ao lado da Banda Sinfônica Jovem de São Paulo (recentemente repetiu a dose fazendo os vocais para “Journey To The Center Of The Earth” de Rick Wakeman – porém, à época de “Tommy”, Andre mostrou-se como verdadeiro ATOR, o que certamente encantou e surpreendeu ainda mais aos fãs).
Andre sempre SURPREENDE. Ir a um show seu ou de suas bandas é, via de regra, não saber a surpresa que este irá preparar. Desde a época de ANGRA, temos disponíveis bootlegs em que a banda mandou covers dos mais inusitados, indo de Iron Maiden e Black Sabbath, a nomes como Steve Wonder, ZZ Top e Stephan Eicher. Na “Ritual Tour” com o SHAMAN, a longa turnê gerou momentos inusitados, com tributos a Ozzy, ao Viper, um show antológico ao lado do Karma no antigo “Blen Blen” em SP, além de recursos impactantes, como a famosa bateria-elevador de Confessori. Um épico encontro com diversos convidados foi ainda registrado no DVD ao vivo “RituAlive” (2003). Na “Reason Tour”, de tom frio e sombrio, chegaram a abrir para a clássica banda Nektar, ao lado do Violeta de Outono, oportunidade em que mandaram o excelente “Reason” praticamente na íntegra.
Talvez a grande “bola fora” da carreira de Andre tenha sido a inexplicável aproximação com Timo Tolkki (Stratovarius), formando o SYMFONIA, uma espécie de “seleção do metal melódico” em 2010. Foi das poucas vezes em que vimos Andre seguir uma sonoridade assumidamente clichê, pouco tendo o que se destacar em termos de evolução musical. O disco e a turnê foram igualmente mornos.
Porém, retornando à carreira principal de Andre, com tanta versatilidade, criatividade (nos álbuns e nas turnês), sendo compositor de mão cheia… cabia a pergunta acerca de qual seria seu próximo passo.

E a empreitada foi seguir solo. Um “solo”, que era uma banda. Contou por algum tempo com o velho companheiro Luis Mariutti, seguiu com Hugo Mariutti nas guitarras, com Fabio Ribeiro, com o guitarrista André Zazá Hernandes (Sunsarah, Angra), além de revelar bateristas do porte de Eloy Casagrande (Banda Gloria, hoje no SEPULTURA).
Após uma estréia vitoriosa com o melódico “Time To Be Free” (2006, não tão ousado como outrora, mas com seus fortes momentos pesados e experimentais), uma espécie de ‘brinde’ à sua própria carreira,  Andre encantou a todos com “MENTALIZE” (2009) – quando se aproximou do produtor CORCIOLLI, famoso pela filosofia New Agee pelo selo Azul Music. Com forte ênfase nas letras e na sofisticação da música pesada, lembrou os tempos de Shaman, quando se aproximou do também mestre Marcus Viana, isto é, trazendo para o Heavy Metal refinamento e profundidade por meio de novos elementos, com sua latente aura progressiva. No caso de Corciolli, a nova filosofia influenciou também as belíssimas letras de Andre no disco. Era, mais uma vez, a “nova forma” de se fazer música pesada…
ANDRE atualmente mora na Europa e segue livre em carreira solo. Recentemente lançou o ótimo “The Turn Of The Lights”, seguindo a forma pouco usual de fazer Heavy, embora mais contido em inovações – incluiu, no entanto, covers que foram de Queensrÿche a Radiohead. Ainda arrumou tempo para fazer uma turnê comemorativa ao lado dos amigos de VIPER e, por fim, anunciar que na turnê do novo álbum incluirá a execução, na íntegra, do “Angel’s Cry” de 1993. Esperamos que faça o mesmo com o épico “Holy Land” quando a hora chegar…
Este é Andre. Um INOVADOR da música pesada, e tem todo nosso respeito…

Fonte: http://thedaringartof.blogspot.com.br/2013/04/andre-matos-parte-i.html

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