Shaman

Por Thiago Reis
Após várias divergências musicais e empresariais, três ex-membros do Angra decidiram montar uma nova banda, que seguiria basicamente o mesmo estilo de seu conjunto anterior, mas com algumas particularidades. Andre Matos (vocal), Luis Mariutti (baixo) e Ricardo Confessori (bateria), juntaram forças com o guitarrista Hugo Mariutti e formaram o Shaman. Ao longo das próximas linhas comentaremos a discografia desta banda que sofreu várias mudanças em sua formação, mas não perdeu a sua essência.
Ritual [2002]
O debut do Shaman foi uma das gratas surpresas do começo da década passada, pois conseguiu mostrar criatividade, força, ótimas melodias e uma grande capacidade de “renascer das cinzas” dos membros vindos do Angra. O álbum começa com “Ancient Windas”, que já mostra de cara a identidade da banda, com grandes influências indígenas, como o próprio nome do quarteto sugere. Mística, poderosa e com harmonias bem fortes, ela nos leva a um passeio pela natureza e pela vida indígena, sendo a introdução perfeita para o começo de nossa viagem. O Heavy Metal começa com a bombástica “Here I Am”, que mostra a grande capacidade de Hugo, com riffs de ótimo gosto e um timbre de guitarra bem agradável. Matos entra em cena com uma abordagem em suas linhas vocais que não lembram tanto a época de 93-99, mas mostrando a maestria de sempre. A cozinha faz um ótimo trabalho, sendo os perfeitos coadjuvantes para o solo de piano que entra em cena, abrindo alas para um ótimo solo de guitarra de Hugo. “Distant Thunder” começa literalmente como um trovão, e mais um grande riff de Hugo, e um acompanhamento digno de nota de Confessori, fazem com que essa introdução seja uma das mais impactantes de toda a discografia da banda. Matos mais uma vez canta com uma abordagem diferente e de muito bom gosto. Em vários momentos da música, sons referentes à natureza ecoam, enquanto os músicos despejam classe e virtuose. A música tem uma parada que leva para um lindo dueto de piano e guitarra, culminando com mais um grande solo de Hugo. Após esse grande momento voltamos ao refrão, que traz muita energia e uma ótima performance de Matos, encerrando com chave de ouro, tendo a mesma frase de guitarra da introdução nos brindando mais uma vez com esse excelente riff. O clima indígena volta com a clássica “For Tomorrow”, com uma introdução cativante e uma participação envolvente de Matos, e o peso volta com um riff bem pesado, e Matos tendo o vocal rasgado. O refrão cumpre o seu papel de grudar na cabeça do ouvinte e logo após temos a volta do vocal rasgado, o que demonstra cada vez mais a versatilidade, que junto da ótima performance dos outros músicos, faz com que “For Tomorrow”, seja uma das faixas mais bem recebidas pelo público. “Time Will Come” tem uma linda introdução de piano e logo depois entra a velocidade e precisão bem característicos do Heavy Metal Melódico. É uma boa música, mas perto dos grandes petardos do álbum, não chega a ser o grande destaque. O mesmo pode ser dito de “Over Your Head”, que tem sua qualidades mas não chega a ser um clássico e nem tão cativante quanto várias outras faixas do álbum. Depois de duas músicas “mornas”, eis que surge um dos maiores clássicos do metal nacional nos anos 2000. Com uma linda introdução cantada em latim e um piano mais do que cativante, “Fairy Tale” mostra um dos momentos mais inspirados de Matos. Misturando momentos de música clássica, heavy metal e principalmente um feeling que transcende qualquer estilo de música, ela tem todas as qualidades de um grande clássico, e até hoje é lembrada por grande parte dos fãs como um dos grandes momentos da carreira do Shaman. Além desse reconhecimento dos fãs, essa faixa foi escolhida como a trilha sonora da novela “Beijo do Vampiro” da TV Globo, o que rendeu uma grande publicidade para a banda. Com um vocal mais ameno e uma cozinha tomando a frente, temos “Blind Spell”, que além disso possui um ótimo refrão e um bom solo de guitarra. Mas mesmo assim não chega a ser um clássico, como “Here I Am”, “Distant Thunder”, “For Tomorrow” e “Fairy Tale”. A faixa-título começa com mais um poderoso riff de Hugo e um acompanhamento de teclado que confere um ótimo clima para a música. Andre entra com um vocal bem rasgado e muito bem elaborado, e esta é uma das faixas do álbum que mais funciona ao vivo, devido a sua grande energia. O álbum se encerra com “Pride”, que é justamente a faixa que Andre canta com mais influências de suas bandas antigas. Notas agudas, velocidade e riffs bem técnicos são o carro chefe dessa faixa que também aparece como uma das favoritas dos fãs da banda. O impacto do lançamento de Ritual foi tão grande que uma extensa turnê ao redor do Brasil e do mundo foi agendada, culminando com uma apresentação de gala em São Paulo para a gravação do DVD Ritualive, um dos maiores shows da história do Metal nacional, tanto em termos de estrutura como em termos de performance. Após a grande receptividade do álbum e da turnê era hora de entrar no estúdio para a gravação de mais um álbum, que surpreenderia os fãs pela direção que iria tomar.
 Reason [2005]
Pesado, denso e com melodias mais obscuras, este pode ser o resumo de Reason, um álbum que foi muito criticado pelos fãs, mas que possui várias qualidades, entre elas a “enxugada” de exageros e o fato de dar destaque à honestidade, ou seja, tudo que os músicos sentiam era explanado nas letras. Este é sem sombra de dúvidas um dos discos em que Matos conseguiu passar todas as suas emoções através das músicas e das melodias. A primeira faixa, “Turn Away”, já demonstra isso, pois não é uma introdução instrumental, muito pelo contrário. É pesada, direta e com uma veia Heavy Metal bem presente. Uma ótima maneira de começar um álbum com a proposta citada acima. “Reason“, uma das melhores músicas do disco, aparece em seguida, com sua linda introdução, bem penetrante, com ótimas participações de todos os membros da banda, imprimindo um clima mórbido à música, mas ao mesmo tempo agradável de se escutar. Uma surpresa vem a seguir “More”, cover muito bem executado para a canção do Sisters of Mercy, mostrando a versatilidade do Shaman, que foge cada vez mais do rótulo de Metal Melódico, caindo nas graças dos fãs. “Innocence” nos brinda com lindas melodias, letras muito bem feitas, um refrão de muito bom gosto e sem sombra de dúvidas uma das faixas mais pedidas nos shows do conjunto. “Scarred Forever” mostra um lado mais melancólico e pesado do Shaman, com guitarras pesadas, vocais rasgados e simplicidade nos arranjos. “In the Night” e “Rough Stone” continuam com a mesma proposta, mas não possuem o mesmo destaque das músicas citadas anteriormente, apesar de bons momentos, principalmente “Rough Stone” e seu início mais do que emocionante. “Iron Soul” possui uma melodia e um andamento mais acessível ao grande público, ou seja, não tem tantos elementos do Heavy Metal, mas uma ótima mistura de estilos, o que a torna uma das melhores do disco. “Trail of Tears” nos brinda com mais emoção, honestidade e um groove digno de nota, cortesia de Confessori e Mariutti. E mais uma vez Hugo se destaca, com frases marcantes na guitarra. O álbum termina do jeito que começou, ou seja, com melancolia, peso, ótimos riffs e canções mais diretas, através de “Born to Be”, que pode ser considerada mais uma obra prima da carreira do Shaman, mas que infelizmente muitos fãs não dão ouvidos. Após a “Reason Tour” em 2006, problemas entre os membros da banda fizeram com que houvesse uma debandada geral e apenas Ricardo Confessori ficasse no conjunto.
Immortal [2007]
Após um pequeno hiato, o Shaman estava de volta com três novos membros: Thiago Bianchi (vocal), Leo Mancini (guitarra) e Fernando Quesada (baixo). E para mostrarem serviço, nada melhor do que gravar um novo full lenght. A faixa de abertura, “Renovatti”, mostra um Shaman querendo voltar à proposta inicial, ou seja, um Heavy Metal mais melódico e com todas as orquestrações que o estilo demanda. “Inside Chains” nos brinda com riffs energéticos, um refrão bem feito, mas podemos perceber que é uma música que não empolga tanto, mesmo com um ótimo solo de teclado e algumas boas viradas. “Tribal By Blood” supera “Inside Chains” no quesito empolgação, e com certeza tem lugar cativo no set list da banda nessa nova formação. A faixa título também merece destaque pela introdução de bateria, riffs bem pesados, bases muito bem escolhidas de teclado e os vocais rasgados e bem colocados de Bianchi. “One Life” começa com um clima bem “indígena”, calma e com vocais bem suaves, mas logo após esse começo bem leve, temos a presença de riffs de ótimo gosto e um refrão empolgante, cumprindo bem o papel de ser uma faixa pesada e ao mesmo tempo acessível ao grande público. “In The Dark” é uma das faixas de maior sucesso dessa nova formação do Shaman, com direito a clipe, ótimas melodias, vocais mais uma vez muito bem elaborados por Thiago e um arranjo de muito bom gosto acompanhando a interpretação do vocalista. O peso volta em grande estilo com “Strenght”, tendo como carro chefe a velocidade e os riffs. “Freedom” mostra que o peso está mais do que vivo nessa nova formação do Shaman, com riffs bem elaborados, viradas bem características do estilo de Confessori e um dos melhores solos de Mancini como guitarrista do Shaman. “Never Yeld!” mostra o entrosamento da cozinha Quesada/Confessori, ótimas passagens de guitarra e vocais estridentes de Bianchi. O álbum se encerra com uma linda balada chamada “The Yellow Brick Road” que mostra todo o talento de Bianchi, quando não resolve exagerar nas notas agudas, e a banda faz ótimos arranjos, criando um clima bem agradável. Mesmo com a incerteza da aceitação da nova formação o Shaman gravou um DVD no evento Anime Friends, em São Paulo. A turnê de Immortal durou aproximadamente um ano, e em 2010, já era hora de ir para o estúdio novamente para gravar um álbum que consolidasse ainda mais a nova formação do Shaman.
Origins [2010]
Para solidificar esta formação do Shaman, os membros deveriam fazer um álbum mais impactante e com uma produção ainda melhor que a encontrada em Immortal. As canções são muito boas, mas ainda falta algo em termos de produção, que leve o disco a ficar ainda mais grandioso. A introdução “Origins (The Day I Died)” nos remete a uma viagem, a uma cavalgada e a algo bem forte que está por vir. E é justamente com “Letal Awakening” que isso se comprova, pois é uma música poderosa, cheia de riffs e viradas, vocais que misturam agudos e rasgados, solos bem velozes e um ótimo refrão. Diferente de Immortal, o Shaman acertou em cheio na faixa que sucede a introdução. Seguimos com mais peso, proveniente de “Inferno Veil”, que tem ainda uma veia bem prog, com ótimas viradas, uma combinação perfeita da cozinha Quesada/Confessori e Mancini fazendo muito bem a sua parte, com riffs poderosos. Uma pena que seu timbre de guitarra tenha ficado um pouco apagado no disco. Esta é mais uma faixa que funciona muito bem ao vivo e que merece estar registrada em um futuro DVD da banda. Seguimos com a calma e bem característica faixa “Ego Pt 1”, uma música que segue a linha de canções como “One Life” e “For Tomorrow”, e só o Shaman sabe fazer. A continuação, chamada obviamente de “Ego Pt.2”, vem com o peso das faixas “Inferno Veil” e “Lethal Awakening”, além de velocidade e ótimos riffs de Mancini. Além disso, os vocais de Thiago combinam perfeitamente com os arranjos da canção. O carro chefe do álbum, a música que ganhou um clipe e uma projeção maior na divulgação do disco, é uma de suas melhores. “Finally Home” possui todos os elementos que o Shaman sempre utilizou em suas músicas: uma ótima letra, bons arranjos e uma voz impecável de Bianchi, fazendo com que esta seja uma das preferidas dos fãs dessa nova fase da banda. “Rising Up to Life” mostra a voz suave de Bianchi em destaque, junto com um teclado cumprindo seu papel de acompanhante. Através desses elementos, ela transborda feeling, boas harmonias e conta com um ótimo solo de Mancini. “No Mind” possui peso, ótimas viradas ao estilo prog e um refrão que cola em nossa mente. “Blind Messiah” tem os famosos violões, arranjos típicos do Shaman e mais uma ótima interpretação de Bianchi, que se sobressai em músicas mais lentas, com o seu timbre mais suave. A música ganha mais peso, mas não perde em classe e em ótimos riffs. O álbum fecha com “S.S.D (Signed Sealed and Delivered)”, mais uma linda composição de encerramento, violões muito bem tocados, a voz de Bianchi mais uma vez sobressaindo, com um lindo solo de Mancini para encerrar com classe esse ótimo registro. O lançamento de Origins veio acompanhado em sua versão nacional de um DVD gravado na turnê do disco Immortal, na Republica Tcheca, durante o festival Masters of Rock. Vale ressaltar que o show do Shaman foi acompanhado por uma orquestra, que deu ainda mais brilho à apresentação.
Leo Mancini, Thiago Bianchi, Ricardo Confessori e Fernando Quesada
O Shaman é uma banda que sofreu com as várias alterações em sua formação, ou seja, sua identidade foi sempre sendo alterada ao longo do tempo. Mas mesmo assim em tão pouco tempo conseguiu lançar ótimos discos e grandes lançamentos em DVD. E que venham mais álbuns e música de qualidade nos próximos anos.

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