Viper

Por Fernando Bueno

Uma das bandas mais amadas do país, o Viper viveu altos e baixos em sua carreira e hoje tem seu nome lembrando de novo graças a uma turnê de reunião que, desde o ano passado, vêm fazendo shows sempre lotados pelo Brasil. A banda começou suas atividades no ano de 1985 muito influenciados pelo mega festival Rock in Rio que recentemente tinha ocorrido no Brasil. Os garotos, todos com seus 14-15 anos, fãs de Iron Maiden, resolveram seguir os passos de seus ídolos.

Os irmãos Passarel e Felipe Machado tiveram a idéia de montar a banda e chamaram Cassio Audi para o posto de baterista. André Matos foi escalado para ser o tecladista já que esse estudava piano desde seus 6 anos de idade, porém foi convencido a cantar mesmo que no princípio estivesse com bastante receio disso. Essa escolha foi muito mais baseada no seu visual parecido com o de Bruce Dickinson do que por suas qualidades vocais. É até estranho sabermos algo desse tipo hoje depois de conhecer o enorme potencial vocal de André.

Pit Passarel, Felipe Machado, André Matos, Yves Passarel e Cassio Audi

Após conhecerem Celso Barbieri, apresentador e uma figura que ajudou bastante no desenvolvimento do rock brasileiro conseguiram shows em lugares importantes e estofo para gravar sua primeira demo, The Killera Sword. Pouco tempo depois a Rock Brigade, por intermédio de seu selo sugeriu que os rapazes gravassem seu primeiro disco. Foram chamados de “Os Menudos do Heavy Metal” por serem tão jovens e em referência à boy band pop portoriquenha que fazia um enorme sucesso no Brasil na época.

O Viper teve um começo grandioso, se perdeu em muitas mudanças de direcionamento musical, voltou a fazer o tipo de som que os fãs queriam e conseguiu retomar o interesse dos fãs graças a já citada reunião.

Soldiers of Sunrise (1987)

Extremamente influenciados por Iron Maiden, o Viper grava um disco que ficará na história do heavy metal nacional. É até desnecessário ficar citando as semelhanças com o trabalho dos inglesas, mas “Nightmare”, por exemplo, segue totalmente a linha de “The Trooper” com seus riffs principais com estruturas semelhantes até o refrão apenas com coros. “Killera (Princess of Hell)” é também uma parente distante das faixas instrumentais que o Iron Maiden gravava nos primeiros discos.  A fraca produção não chega a atrapalhar o resultado, mesmo com as guitarras um pouco emboladas e o vocal com efeitos evidentes. Esse é um daqueles discos que merecia uma remasterização mais bem elaborada. Tiveram coragem de fazer suas letras em inglês, o que não era muito normal na época. Basta ver que bandas como Dorsal Atlântica e várias outras do então iniciante heavy metal brasileiro ainda tinham canções preferencialmente em português. Claro que alguns deslizes no idioma bretão ocorreram, mas nada que fosse muito embaraçoso. Mas não foi só a banda de Steve Harris que contribuiu com influências, o discurso pró-metal muito presente nas músicas do Manowar também aparecem em “H. R.”, as iniciais de Heavy Rock. Curioso eles terem usado o termos heavy rock ao invés de heavy metal que já era mais consolidado na época. Muito se comparou o início do Viper com o Helloween e a alegação era que André Matos era apenas uma cópia de Michael Kiske. Contudo essa comparação, feita já depois de alguns anos, não cabe já que o primeiro álbum de Kiske com o Helloween foi lançado exatamente quatro dias antes de Soldiers of Sunrise. Não dava tempo de copiar alguma coisa certo? O que aconteceu depois é outra situação e tem outro contexto. O álbum vendeu rapidamente 10.000 cópias no Brasil, algo bastante representativo para a época. Depois do lançamento e sucesso desse disco eles foram escalados para abrir shows do Motorhead no país.

Theatre of Fate (1989)

Pouco mais de dois anos depois a banda nos apresenta Theatre of Fate. Dois anos na vida de um adolescente parecem décadas, como também parece que esse foi o tempo de amadurecimento do grupo. A bateria agora estava nas mãos de Sergio Facci, mesmo que Guilherme Martin apareça nos créditos e fotos do álbum. Soldiers of Sunrise foi muito bem feito, mas não dá para comparar com esse disco que foi gravado no Brasil e mixado na Inglaterra. Tudo foi executado com o maior cuidado. A evolução e o aprendizado que tiveram como músicos durante esse tempo foi todo aplicado aqui com claro destaque para André Matos, que conseguiu inclusive usar suas influências em música clássica no heavy metal. Sabendo o quanto os headbangers são avessos à mudanças, principalmente naquela época em que eles eram ainda mais radicais do que hoje, damos ainda mais valor à esse detalhe. Basta ler alguma resenha da revista Rock Brigade da época para notar isso, por sinal o selo da revista foi novamente o responsável pelo lançamento e distribuição do disco. É até difícil conseguir escrever tudo o que representa para mim esse disco. Conheço todas as passagens, todas as nuances, todas as linhas vocais e de guitarras. É muito provavelmente um dos 5 discos que mais ouvi na vida e estaria numa hipotética lista de 10 discos que levaria para uma praia deserta (nos comentários posso tentar fazer a lista completa). TODAS as faixas são excelentes e as mais lembradas pelos fãs são “To Live Again”, “A Cry From the Edge” e o clássico absoluto “Living For the Night”. Tenho um carinho especial com “At Least a Chance” e principalmente por “Prelude to Oblivion”, tanto pelas questões musicais quanto pelas líricas. “Moonlight” é uma prévia do que André viria a fazer com o Angra. Só não fez mais sucesso no mundo porque seu lançamento em alguns países demorou anos. Muitas bandas procuraram por anos e anos, alguns até décadas, e não conseguiram um resultado do nível desse disco que foi composto e executados  por uns adolescentes brasileiros.

Felipe Machado, Pit Passarel, Yves Passarel e Renato Graccia

Como citado antes os integrantes da banda eram todos adolescentes e é natural que alguns outros interesses aparecessem para atrapalhar ou desviar a caminhada da banda. André Matos estava totalmente focado em seus estudos musicais e decidiu sair do grupo já que não conseguia conciliar o Viper com a faculdade. Além disso alguns comentários de outros componentes da banda sobre o resultado de Theatre of Fate o estavam incomodando. Ele ouvia aos sussurros e em algumas ocasiões diretamente coisa do tipo: “mexeram na minha música” ou “inseriram muito rococó e viadagem”. Outra mudança, ainda na turne de promoção de Theatre of Fate,  foi novamente no posto de baterista: sai Guilherme Martin, entra Renato Graccia.

Evolution (1992)

Todos estavam curiosos e se perguntavam como seria o Viper sem André Matos e a resposta de Evolutionfoi algo como “muito bem, obrigado”. A primeira coisa que notamos é que a voz de Pit Passarel se não tem a mesma magnitude que a do antigo vocalista é bastante adequada para o tipo de som que faziam. Também foi acrescentado um pouco de peso ao som, mas a melodia que transbordava nos dois primeiros discos aqui também se faz presente. “Coming From the Inside” é uma das melhores faixas da banda e uma ótima abertura para um disco. Muitos falaram que o nome do álbum foi uma cutucada no André, como se eles falassem que com a saída dele eles cresceram. Curioso é que quando ele saiu do Angra o álbum seguinte chamou-se Rebirth. Independente disso a faixa “Evolution” é um dos clássicos do metal nacional. Depois disso o maior hit do disco, “Rebel Maniac”, com seu refrão pegajoso feito para ser tocado ao vivo. Quem nunca cantou everybody, everybody com toda a força? “Dead Light” diminui a velocidade das três primeiras faixas e é talvez o melhor trabalho vocal de Pit do álbum. Nessa faixa percebemos o quanto as guitarras gêmeas dos primeiros discos ainda estão lá. “The Shelter” e “Still the Same” mantem a boa qualidade do disco, principalmente essa última com passagens que lembram muito o Iron Maiden. A segunda metade é um pouco inferior com destaque apenas para a boa regravação de “We Will Rock You”. Como curiosidade tem o fato de o produtor do disco ter sido Charlie Bauerfeind, que trabalhou com nomes como Angra, Blind Guardian, Hammerfall e Helloween, bandas ícones do metal melódico exatamente quando o Viper estava se distanciando do estilo. Com Evolution o Viper mostra que conseguiu andar sem as pernas de André Matos.

Vipera Sapiens EP (1993)

Normalmente não comentamos sobre EPs nas discografias comentadas, mas nesse caso acho que vale a pena já que são quatro faixas inéditas, uma variante para “Wasted”, que aqui ficou sendo chamada de “Wasted Again” e uma versão acústica para “The Spreding Soul”. Das inéditas apenas “Killing Time” tem um jeitão de sobra de estúdio, já as outras – “Acid Heart”, “Silent Enemy” e “Crime” –  poderiam muito bem ter entrado em Evolution que não fariam feio. Esse lançamento é bastante procurado pelos fãs que gostam do resultado de Evolution já que suas músicas seguem bastante a linha do álbum de 92. Foi lançado especialmente para o público japonês, um aperitivo para os nipônicos que logo teriam também um álbum ao vivo gravado em suas terras no mesmo ano, Live – Maniacs in Japan. Esses shows no Japão foram os de encerramente de uma turnê que passou por muitos países. Pit Passarel conseguiu manter o pique também ao vivo mesmo em músicas que originalmente eram cantadas por André Matos. Ainda em 1993, um ano cheio para a banda, foram escalados para abrir os shows do Metallica no Brasil.

Coma Rage (1994)

Lembro que na época do lançamento desse disco os Ramones faziam shows frequentemente aqui no Brasil. Tinha vários amigos que estavam entrando de cabeça no punk e hardcore que começaram a gostar desse disco dizendo que o Viper estava levando seu som para essa linha. Não sei se o Viper tentou embarcar nessa, mesmo com o cover gravado em Maniacs in Japan para “I Wanna Be Sedated”, mas eu consigo ver uma ligação entre esse e o disco anterior. Principalmente em como os instrumentos soam. “Straight Ahead” lembra a pegada de “Evolution”. A velocidade volta em “Somebody Told Me You’re Dead”, essa sim uma música que tem muito mais influencia de hardcore que a faixa título. Outra que podemos dizer o mesmo é “Blast!”. Porém, mesmo contendo muitas características deEvolution o resultado de Coma Rage é inferior. Os destaques são as duas faixas que abrem o disco e o cover para “I Fought The Law” de Sonny Curtis popularizada pelo The Clash em versão que o Viper certamente se inspirou. “A Face in The Crowd” merece ser citada também. Seu início, contando com a faixa “405 South que serve como intordução para ela, que têm um pouco do industrial que também era popular na época com bandas como o Ministry, mesmo que com o desenrolar da faixa ela volte para a pegada do disco. A impressão final é que alguns bons riffs ficaram perdidos em faixas sem muito destaque. Nesse ano o Viper tocou na rpiemira edição brasileira do Monsters of Rock, show que tive o prazer de estar presente.

Tem Pra Todo Mundo (1996)

Com várias bandas brasileiras como Raimundos, Pato Fu, Los Hermanos, Charlie Brwon Jr. e outras fazendo enorme sucesso pelo Brasil o Viper acabou apostando nessa onda. Porém a credibilidade da banda com o público foi lá para fundo do poço. É normal que com o passar dos anos as pessoas acabem absorvendo outros tipo e estilos musicais e para os músicos isso pode influenciar no seu trabalho. Mas não tem o menor sentido uma mudança tão radical assim. Algumas faixas tem a inclusão de um naipe de metais fazendo o Viper soar quase como um Skank, como é o caso de “Crime na Cidade”. Se levarmos em conta o direcionamento musical de Coma Rage seria até compreensível alguma coisa na linha do que os Raimundos estava fazendo, ou seja, músicas em português, com bastante apelo pop e que tocava demais nas rádios. Porém no caso dos Raimundo eles nunca se desviando da veia hardcore que tinham desde o início. O resto foi apenas incorporado. O Viper mudou completamente. O Tem Pra Todo Mundo soa como se fosse um disco ruim da boa onda BRock surgida nos anos 80. Tem até um cover do Legião Urbana. “Na Cara do Gol” é uma tentativa de falar de futebol e conseguir atenção por isso. A inclusão de uma cuíca e um sambinha é patética, soando totalmente artificial. Para não dizer que não elogiei alguma coisa “Not Ready to Get Up” tem uma melodia bem legal. Tem mais uma outra cantada em inglês, “The One You Need”, mas não vou nem comentar. Se o disco já não era uma maravilha ele praticamente ficou sem divulgação alguma devido a falência da Castle, a gravadora, e o início de um litígio judicial. Assim acabaram arrumando uma desculpa melhor para encerrar as atividades, coisa que Tem Pra Todo Mundo tinha tudo para conseguir.

Ricardo Bocci, Guilherme Martin, Felipe Machado, Val Santos e Pit Passarel

All My Life (2007)

Depois de anos de quase inatividade o Viper volta com uma nova formação trazendo Ricardo Bocci (Ex-Rei Lagarto) nos vocais. Seu timbre lembra muito o de André Matos e faz crer que a idéia era trazer o clima dos primeiros discos. Com a saída de Yvez Passarel outro guitarrista foi chamado para completar a formação, Val Santos. O resultado do álbum é bastante interessante, o problema é que ele acabou sendo lançado em uma época em que o metal melódico já estava bastante saturado. Entretanto o peso da faixas é algo que as bandas do estilos tinha esquecido um pouco e aqui é muito bem vindo como é o caso de “Cross the Line”. As três primeiras faixas são certamente os destaques do álbum, a saber “Miracle”, “All My Life” e “Come On Come On”. Mas todo mundo vai acabar só se lembrando da participação do próprio André Matos em “Love is All”, mostrando que o relacionamento entre eles estava bom e uma eventual volta não seria atrapalhada por falta de entendimento entre as partes. Fico imaginando a pressão que Ricardo sofreu por ter André Matos participando do disco, afinal dez entre dez fãs gostariam que ele retornasse à banda. Pena que a produção deixou um pouco a desejar.

Pit Passarel, André Matos, Hugo Mariuti, Guilherme Martin e Felipe Machado

A volta do grupo com seu vocalista original era algo muito pedido pelos fãs. Ainda mais depois de All My Life em que a banda voltou a gravar e no estilo que todos esses fãs que queriam a volta gostaria que fosse. Aqui mesmo na Consultoria do Rock publicamos em uma de nossas colunas, a Notícias Fictícias que Gostaríamos que Fossem Reais em 10 de maio de 2011 uma matéria imaginária sobre essa possível volta. Pouco menos de um ano depois ainda durante o esquecível Metal Open Air em São Luiz do Maranhão, foi veiculada a notícia de uma turnê do Viper com sua formação (quase) original tocando os primeiros discos. Para o lugar de Yves Passarel (que participou apenas de alguns shows) foi chamado Hugo Mariuti, companheiro de André em diversas bandas nesses últimos anos e para a bateria, para contradizer a matéria “premonitória” do nosso site, ficou a cargo de Guilherme Martin. A turnê To Live Again passou por diversas cidades e matou a vontade de muitos fãs pelo Brasil, inclusive este que vos escreve que esteve no show de Manaus em dezembro de 2012 (leia a resenha do show de Porto Alegre aqui). O que se viu foi uma celebração entre amigos de uma época que deixou saudade. Porém tenho que destacar a imagem que Pit Passarem deixou para o público. Fiquei preocupado em vê-lo tão magro, totalmente alterado e praticamente sem função no palco. Dava para notar o contrangimento dos outros músicos. Espero que essa turnê, que rendeu a gravação de um DVD, faça bem para ele.

Andre Matos

 

Fonte: http://consultoriadorock.com/2013/11/03/discografias-comentadas-viper/

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