DVD: Shaman – RituAlive (2003)

RituAlive

por Ulisses Macedo

Eu ainda me lembro de quando eu comecei a escutar Rock e Heavy Metal. Meu pai já curtia algumas poucas coisas do estilo; embora sempre preferisse os artistas nacionais, como Raul Seixas, ele tinha um CD coletânea do Creedence Clearwater Revival. Eu me lembro de ter uns sete ou oito anos e jogar Crash Bandicoot ao som maravilhoso de “Green River”. Pouco tempo depois eu acabei conhecendo o Slipknot. Não me recordo exatamente como, mas provavelmente foi com umas dessas revistas baratas que vem com pôsteres e letras da banda que agraciava a edição da vez. Com nove malucos fantasiados na capa, que garoto da minha idade conseguiria resistir? Corri para o recém-descoberto Shareaza (programa de compartilhamento de arquivos) e baixei muitas coisas dos caras. E na 6ª série, quando um colega me apresentou o System of a Down, aí é que não tinha mais jeito mesmo: estava no caminho certo para me tornar um headbanger. Em off: não são como os Black Sabbath ou Deep Purple que iniciaram a maioria do pessoal, certo? Mas é inegável que serviram bem a seu propósito. Tão bem que os escuto até hoje.

Andre e Hugo

Um outro colega, desta vez oriundo de um fórum da Internet (e aí, como vai, Icarus?), me apresentou a banda agraciada neste post. O impacto de ouvir “Carry On” protagonizada pelo Shaman foi tamanho, que esta sim eu considero minha verdadeira iniciação do mundo da música pesada. E quase uma década depois eu continuo com a mesma afeição por este fantástico DVD. Falar do Shaman (com o Andre Matos e os irmãos Mariutti, é claro) é como falar da própria mãe. Mas deixemos a nostalgia de lado, por ora, e permita-me que eu me concentre no alvo desta postagem.

O Shaman, como quase todo mundo já deve saber, foi inicialmente concebido com a saída de Andre Matos (vocal eteclados), Ricardo Confessori (bateria) e Luis Mariutti (baixo) do Angra em 2000, alegando problemas com o empresário. Sem a possibilidade de utilizar para si o nome Angra, tiveram inspiração na canção “The Shaman” (do Holy Land) e logo se puseram a compor. Hugo Mariutti, irmão de Luis, também entrou no bonde e ali começava uma curta, mas interessante carreira. Lançaram o aclamadoRitual, e o resto vocês já sabem…

Luis Mariutti, a.k.a Jesus do baixo

RituAlive, o show, foi filmado na casa paulistana Via Funchal (*) no dia 05 de abril de 2003, com o DVD e o CD lançados no finalzinho do ano. Era, na verdade, o segundo show do grupo naquele local: na primeira vez, em 2001, a maior parte do setlist era de covers do Angra. Do álbum de estréia, só as que já estavam prontas mesmo. A apresentação inicia-se com a instrumental “Ancient Winds”, que também abre o Ritual. Aliás, o próprio setlist segue o CD até na ordem, salvo alguns covers no meio, como veremos daqui a pouco. Não demora muito e a veloz “Here I Am” entra em cena, botando o povo pra pular e se esgoelar, e a banda previsivelmente mostra-se bastante entrosada e enérgica. Em seguida, “Distant Thunder” me apresentava ao carisma de Andre Matos, um baita de um frontman com o público nas mãos o tempo inteiro. Ele aproveita para fazer uma passagem de teclado que logo dá lugar ao ótimo solo de Hugo. Os dois juntam forças novamente para “For Tomorrow“, e seus violões e flautas no começo logo dão lugar à guitarras distorcidas em uma épica performance, onde Matos parece derramar sua alma no palco. O final desliza perfeitamente para “Time Will Come“, com Andre nos teclados denovo, introduzindo a minha canção favorita de Ritual; logo a galera volta a pular loucamente ao som dos riffs. No solo, os irmãos Mariutti brevemente duelam, e percebe-se mais claramente o som do baixo. No final, não resta alternativa a não ser aplaudir este petardo!

"...at the docks, and everywhere..."

Agora vem o primeiro dos covers: a galera já faz os “ôh ôh ôh ôh” assim que reconhecem “Lisbon“, onde também podemos enxergar melhor o tímido cabeludo ali atrás: é o Fábio Ribeiro, convidado para cuidar dos teclados e que posteriormente acabou entrando na banda. É uma pena que, durante a filmagem dá pra ver pouco dele, pois ele é competente e executa o trabalho com sobras. A música, que já é muito boa, fica ainda melhor com as palmas e a participação do público. Já Hugo dá um arraso e não deixa dever em nada para a versão do Angra.

George Mouzayek só no batuque.

Em seguida temos os solos de guitarra e bateria. O de Hugo não é lá essas coisas, na verdade, e mais parece uma introdução que desliza fácil para o de Confessori, esse sim mais longo e “recheado”, com direito a pirotecnia. Em geral, porém, considero solos no meio show algo bem descartável – eu quero é música! O desejo é atendido em “Over Your Head“, um épico arabesco que demarca o aparecimento das participações especiais por aqui. Temos George Mouzaiek numa breve passagem rítmica de darbuka, um tamborzinho do oriente médio que faz um som tão legal quanto aparenta. Com ele, o grande Marcus Viana (que mais tarde eu também viria a admirar por seu trabalho no Sagrado Coração da Terra) fazendo seu violino cantar de modo arrepiante. A essa altura você já está no céu, meu amigo, e já pode morrer feliz, mas calma aí que ainda estamos na metade! A mais conhecida canção aparece logo em seguida: sim, este piano é de “Fairy Tale“, que teve grande repercussão nacional ao aparecer na trilha de uma novela global. Andre brinca um pouco com o público antes de executá-la, e novamente ele entrega outra excelente e sincera performance – É palpável a alegria dos presentes quando ele inicia a melodia, que permanece agraciada pela presença de Viana.

Marcus Viana e seu violino mágico.

O lado mais pesado reaparece na surpreendente versão de “Blind Spell“, que soa mais pesada aqui do que no estúdio. Tenho que contar: ficou bem melhor assim, com todo esse fôlego e energia, e sempre me pergunto por quê a banda não a executou assim no Ritual. “Ritual“, ela mesma, aparece sem novidades aqui, mas com a competência de sempre. Uma faixa cadenciada e com uma letra ótima. Depois Tobias Sammet (Edguy, Avantasia) aparece junto ao próprio produtor do disco, Sascha Paeth (Virgo) para tocarem uma empolgante versão de “Sign of the Cross” que, assim como ocorreu com “Blind Spell”, soou melhor ao vivo do que na versão do CD (The Metal Opera, do Avantasia) – a marca de grandes artistas – e continuam com a pesada “Pride“, onde a galera logo tratou de abrir rodinhas.

Andi Deris e Michael Weikath.

A maior pancada não demora a chegar: a versão de “Carry On” deste DVD é FANTÁSTICA. Que petardo! Toda a potência que o leitor já deve conhecer desta abertura de Angels Cry está ali, e mesmo que Hugo seja o único guitarrista, ele novamente segura as pontas com facilidade. Como eu disse no começo do texto, o impacto que esta parte em particular teve em mim foi avassaladora, e do alto de sua Flying V Hugo foi o Guitar Hero da minha infância. E pra fechar com chave de ouro, aparecem Andi Deris e Michael Weikath (Helloween) para uma perfeita e fenomenal performance de “Eagle Fly Free“, do obrigatório disco Keeper of the Seven Keys Part 2. A noite se encerra por aqui e todos os músicos se apresentam novamente perante ao público ao som de “Lasting Child”.

 

O show inteiro teve pouco mais de duas horas de duração, contando até mesmo com mais músicas do Avantasia e até do Virgo, além de “Breaking the Law” com todo mundo ao mesmo tempo. Mesmo com os cortes, RituAlive foi sucesso de crítica e público, um showzaço com mega estrutura que tornou-se imortal e até hoje é referência no meio nacional. Encerro esse post por aqui, e já lhe digo: se nunca assistiu, trate logo de expiar-se de seu pecado o mais rápido possível. E pra quem nem conhece o “Shaman das antigas”: você não sabe o que está perdendo!

"THANK YOU, SÃO PAULO!"

(*): Eu confundi os locais de apresentação. o RituAlive foi filmado no Credicard Hall, e não na Via Funchal. Agradeço ao José Carlos pela correção.

Fonte: http://consultoriadorock.com/2014/08/09/dvd-shaman-ritualive-2003-2/

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